um banquete divino
quando deus nos fez macarrão
todos farinha do mesmo saco
fez também o prato
lugar em que hoje escarro.
só faltou o garfo
que foi aparecer
no sexto dia da criação
doado por netuno
que nem se lembrou de levar o vinho
porque o encarregado
era baco.
e, no sétimo dia,
deus
cansado de tanto invento
resolveu sentar-se à mesa e jantar
o garfo não era fácil de ser manuseado
mas deus não se fez de rogado
e começou a nos enrolar
e comeu fio por fio
e pôde ver que éramos todos iguais
e no prato
não restou nenhum fiapo.
depois,
divinamente,
ele fez a digestão
(e olha como estamos…)
mas a sabedoria
impediu-o de come-
ter outra vez o mesmo erro
quando sente que a inspiração chega
ele logo se impacienta:
“macarrão, não!
que eu faça um frango grelhado!
humanidade-macarrão
me deu indigestão!”
e o verbo se fez carne
***
fiz esse poema em 1999! jesus!
ser que não é
uma pessoa com um pacote cheio de papel na mão só pode ser uma pessoa não de bigorna na mão. nem de mandacaru no chão.
uma pessoa com um pacote cheio de papel na mão só não pode ser uma pessoa de papel com um pacote cheio na mão.
uma pessoa cheia de papel à mão não é uma pessoa de papel à mão-cheia.
um envelope cheio de papel com uma pessoa na mão não é um envelope cheio de pessoa com um papel na mão.
uma pessoa na mão não é uma pessoa cheia de papel na mão. não é um envelope cheio de papel no chão ou um papel cheio de envelope na mão.
uma pessoa
cheia de envelope
com um papel na mão
pediria a ajuda de um carregador
chamaria um aio
uma ama
uma liteira
pediria uma uma enceradeira
um cortador de grama
uma mamadeira
uma pessoa com uma mamadeira na mão não é uma pessoa com um envelope de papel no chão. há quem diga que não.
da série: helder, lotufo, féres
no meio do pomar branco
o coração-arquipélago é maçã
vermelho no pomar
é maçã o coração
e as três linhas de pomar branco
soltas no espaço como coração-estrela
o coração faz-se espiral
verde no pomar bordado
no meio do vermelho do verde coração branco
é maçã o coração o verde o vermelho o pomar
apontamentos sobre os livros
este livro foi feito porque um dia, há milênios, alguém teve a idéia de fazer um livro. parou por horas e, sem mais com o que gastar o tempo, juntou páginas escritas, costurou-as, pôs um título na capa e chamou aquilo de livro. mas também houve quem, com um pedaço de linho, limpasse o rosto de jesus e, observando o belo rosto do mestre gravado como um borrão naquele pedaço de tecido, não tivesse a coragem de denominar aquilo livro.
isso equivale a dizer que livros nem sempre são o que parecem ser.
livros são cópias de livros que copiaram outros livros que seguiram o modelo de outros livros. cópia entendida como um modelo seguido por milênios adentro, perpetuado na espécie humana à maneira de um ritual. ou cópia como erro, pusilaminidade.
um livro é sempre aquilo que estamos cansados de ver/fazer. é sempre o cansaço de um outro livro, a citação de outro livro, um metalivro.
conhecemos demais os livros e, no entanto, jamais tocaremos suas entranhas.
um livro nunca é como o outro. e, assim como as pessoas, seu suporte invariavelmente é a matéria viva.
livros de plástico, como as flores, não morrem.
livros de madeira pegam fogo como papel. se protegidos do calor, frio e umidade excessivos apresentam expectativa de vida maior do que a das pessoas que moram nos grandes centros urbanos. certamente mais até do que aquelas que vivem em zonas rurais.
os livros, tão iguais, variam com a moda.
poetas só os são após publicarem seu livro. um livro sem autor é quase nada.
livros não precisam conter letras, histórias ou gravuras. mas esses geralmente custam bem mais caro para serem adquiridos porque são vistos como objetos especiais.
as vacas
para lenise e seus nimbos
de uns tempos pra cá, o que não era livro jogava-se para fora, pela janela. eram os livros agressivos que se empilhavam pelas paredes, como espiassem o visitante secreto que chegaria, para de pronto o atacar. ali, os livros eram vacas violentas amontoadas no topo do pasto, dormindo de olhos abertos, errando, imóveis, enquanto chuva não havia. as páginas brilhantes dos livros de gravura abertos quadruplicavam a luz do sol e alvejavam a vista. enquanto a chuva chegava, a combustão dos livros explosivos alimentava a casa, gelava a geladeira, esquentava a bateria do multi-processador. alagados, os recipientes na cozinha boiavam, organizados por rótulos que levavam o nome dos papéis em pasta que continham. de uns tempos pra cá, eram as vacas amarradas aos estábulos que preparavam o alimento fibroso dos cegos. sem melhor a fazer, eram as vacas que se deitavam nas ilhas de livros a perder as horas degustando combinações melhores ou inferiores. do papel bobina ao papel arroz, somente as vacas não se furtavam ao prazer de mastigar mastigar mastigar aquilo que agora só os peixes liam.
firula
“provérbios do inferno”, de william blake: minha voz com efeitinho tosco de jesus do programa voice candy. e também blake na versão voz de esquilo!
da série: helder, lotufo, féres
livro é múmia.
grávida é mala de coração.
livro carrega palavra/
múmia é mala enfaixada
/um feixe de palavras no coração
faz o poeta romântico/
/múmia é estátua/palavra sepultada/
grávida não carrega múmia no coração
parafernalização dos sentidos

Instruções de Uso
1. adquira um protetor ocular – infantil, porque deixa suas sobrancelhas à mostra (uau!). você pode encontrar esse produto nas melhores drogarias do ramo.
2. adquira uma caneta que escreva em superfícies plásticas.
3. chame seus amigos para passear em algum lugar movimentado da cidade.
4. entregue a cada um de seus amigos um par do protetor ocular e a caneta. peça a eles que desenhem um par de olhos – um olho em cada oclusor. (o modelo dos olhos fica a critério de cada um.
5. centralize o protetor ocular sobre o olho fechado a ser aplicado. coloque um protetor em cada olho (é sempre bom lembrar).
6. já de posse de seus novos olhos, tente não ficar encolhido. vocês também não precisam gritar como se fossem surdos.
7. se possível, documente a experiência. tente escrever algo ou ler um livro. veja com outros olhos os ambulantes e suas as mercadorias. acender um cigarro nestas condições também é algo deveras revelador.
8. quando se cansar, retire a parafernália dos olhos e siga o caminho que for de sua preferência.
* no dia 10/10/05 a operação parafernalização dos sentidos foi realizada pelo grupoPOESIAhoje – até à meia-noite.
** lu moreno e alice bicalho investigaram conosco outras percepções.
*** cíntia frança cuidou-nos e documentou-nos.

***
originalmente postado no blog do grupoPOESIAhoje.
poeminha antigo
Nada como antes
esta espuma de silêncios arredios.
Os olhos se esgarçam nos rochedos.
Ao longe sulcam a areia
os amores soterrados.
novas diretrizes para a construção do livro
I.
o fato de o livro não conter palavras, mas somente alguns pequenos milhões de borboletas que necessitam da inspiração – e expiração – do leitor para voar pode não ter alguma relação com a pintura de frida kahlo, as borboletas de minha infância ou com as pequenas alegrias que rondam a minha vida. pode ser apenas uma forma de dizer: relaxe! a vida é bela. vamos dançar uma polca? mas também é provável – é somente provável, não estou aqui para te dar certezas! – que tenha alguma relação com as proposições acima.
II.
o livro é feito a partir de um código de direito reencadernado de modo que nunca seja possível saber se um dia ele pertenceu a um advogado, a um jurista ou a caryl chesmann – o que, neste caso, faria com que o valor do livro aumentasse significativamente. e não é isso exatamente o que queremos, não é verdade?
III.
o modo como o miolo do livro foi cortado faz com que ele se assemelhe a um daqueles livros com fundo falso, usados em filmes de suspense e nos poemas de joan brossa. mas você não precisa ser uma personagem desses filmes para lê-lo. tampouco é preciso fazer mágicas como o catalão. apenas é necessário que você tenha bons pulmões. o motivo já lhe será revelado. reze, confie e espere.
IV.
se o fôlego tem fugido nas últimas semanas, é recomendável que você inicie um programa de condicionamento físico a partir de hoje. seria lastimável que sua leitura seja prejudicada por uma pequena falha de respiração. pessoas com enfisema pulmonar não estão aptas a ler o livro. fumantes farão uma leitura mais lenta. observe: não é necessário que você possua mãos. a existência de nariz e pulmões saudáveis, e de um amigo que posicione o livro sobre um lugar confortável, já é o bastante.
poema autobiográfico encontrado no bolso do vestido de everildes-morta
Versos de Circunstância
Jamais apreciei balas de goma,
venezias gôndolas,
cortes de casimira.
Casei-me com véu,
Cantei com Noel
e quando tive que sambar,
corei.
Imitei Monalisa,
usei vestido de fita,
cosi a roupa roída do rei.
Jamais li Macário.
Não jogo baralho
e de rimar,
cansei.
everildes
mãe, mulher e amante. nasceu em boa família (mg). aos 30 anos realizou o sonho de ver a torre eiffel, mas jamais conseguiu uma bolsa de estudos em alguma universidade inglesa. nunca foi aprovada no toefl. ganhava a vida fazendo quadras, quadrilhas e, com fazenda chinesa, bolsas usadas à tiracolo. jamais foi descoberta. morreu aos 80 anos em juazeiro do norte, dizendo “não sou noel, mas vou para o céu”.
eclairton
pai, 68 anos, aposentado, regressou à cordilheira dos andes e nunca mais foi visto. após vinte anos retornou à sua cidade natal: criciúma. morreu aos 100 anos, em mogi mirim, de onde nunca deveria ter saído.
…
das três portas que há à sua frente, você olhará somente pelo buraco da fechadura da segunda, posto que as outras duas não possuem nenhum orifíci – para respiração ou regalo da alma.você verá:
brancos destroços de um esqueleto, em que se lerá uma triste história de amor na ainda viva tinta vermelha.
algumas tiras da saia de uma donzela peluda. restos de uma amor que viu o circo pegar fogo.
uma caixa de fósforos vazia, com os dizeres: CUIDADOFRÁGIL.
um chapéu de napoleão, mofado. lembrança das bodas de certa avó.
caixinhas de música, em que se pode ler, em seu anverso: BY PANDORA.
uma lagarta listrada desbotada: um fóssil.
[não necessariamente nessa ordem]
zoé ou não é?

essa bela fotinha aí foi roubada do blog longa viagem invernal, de cíntia frança.
a foto é de uma das partes de zoé, livrim que fizemos no ano passado e que foi exposto na IV mostra novos ilustradores, no início do ano.
veja lá as belas fotos da moça, lindos poemas e a mais nova tradução de um poema da anne sexton.
é mole ou quer mais?
sobre o nome dos animais
as flores amarelas
crescem devagar
(quando nasce mato
nasce rapidinho)
bicho nasce
do ovo batido
pintinhos nascem
amarelinhos
como as flores:
devagar
……
deve ter uns seis anos que fiz esse poema com minha irmã linda e gorducha. como o tempo passa…, diria matusalém.
Gemedeira das Gemedeiras de Salomão
Eu agora vou cantar
durante noites e dias
a história de Waly,
de suas belas poesias.
Vou cantar rindo e chorando
ai-ai, ui-ui,
seus ecos e algaravias.
Sem aquelas nostorgias,
sem voltar vistas pra trás,
ele viu a herança herege
e todo mal que ela faz.
Viu que a sua poesia
ai-ai, ui-ui,
era muito mais capaz.
Sendo ele o capataz,
traficou pitanga em chama,
tiê-sangue, camião,
(sujou o seu pé na lama),
o sol todo em extinção,
ai-ai, ui-ui,
horas turvas e suas tramas.
Ele era a sua mucama,
o algoz de suas fronteiras,
diamante em combustão,
engenheiro de suas beiras
foi tal qual Paul Valéry,
ai-ai, ui-ui,
fez poema sem poeira.
Foi no canto da sereia
e cantou Yemanjá.
Escreveu cartas abertas.
Pulava de lá pra cá.
Espalmava a mão na cara,
ai-ai, ui-ui,
para teatralizá.
Eu agora vou falar
de todos livros do moço:
Me segura qu´eu vou dar
um troço e pulou no poço.
Gigolô de bibelôs
ai-ai, ui-ui.
Isso aqui é só um esboço.
Vou tentar roer o osso
e falar do Armarinho
de Miudezas do Waly
e do seu outro livrinho
que é o Algaravias,
ai-ai, ui-ui.
Não vou sair de fininho.
Sailormoon por seu caminho
descobriu Mel do Melhor,
pagou Tarifa de Embarque,
recusou véu de filó.
Gastou cuspe com sua Lábia,
ai-ai, ui-ui,
era fogo no gogó.
E gemendo de dar dó
Vou cantando até o fim
o Waly de Jequié
que é exemplo para mim
por ter juntado no verso
ai-ai, ui-ui,
o Xangô com querubim.
Licença peço pro fim:
Foi tão bom estar aqui.
É grande a alegria,
Relembrar o Waly,
Encontrar estas pessoas
ai-ai, ui-ui,
Sinceras no aplaudí.
……….
Esta gemedeira foi apresentada no Colóquio Algaravias, na FALE/UFMG, em 2003, durante homenagem ao poeta Waly Salomão, dirigida por Maurício Vasconcelos.
Leo Gonçalves entoou a gemedeira num elegante parangoleo work in progress (se posso chamá-lo assim…)
LISTA #1
MÚSICAS DO QUE NÃO SE DIZ
- correria de dunas
- rumor das folhas do desejo
- modo de estalar os dedos
- farfalhar de saias pelas escadas- retumbar de pedras e manadas
- lava borbulhando sob a terra
- minha cabeça já pelas tabelas
- tremor de pernas na Malásia
- esta espuma de silêncios arredios
- o mar que mói o vento
- palavra sônica de aviões
- relâmpagos ou harmonia para um olhar


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