apontamentos sobre o livro#462 – em processo
um livro é feito de rodas e asas. lonas, cordas, um lanche no meio da estrada. a saudade de casa. o assento confortável da boleia. buzinas, ronco de motor. vento escaldante do meio-dia de verão. ladeira: para cima e para baixo. pra subir ou descer há uma marcha certa. carregar livros. descarregar papel, o imune. a velocidade permitida. bobinas de papel para capa. o óleo diesel. ou é carga importada carregada no cais. atenção à altura máxima ao passar sob viadutos. os semáforos. par avion. talvez um suborninho para a polícia rodoviária não criar problemas. esse papel importado é para um livro muito específico. haverá campanha de marketing. no rádio, aquela música. frequência que autor e editoral jamais vão sintonizar.
é sempre bom lembrar
“O que é um livro? uma sociedade de palavras? Certamente, mas estas palavras encontram-se materializadas, conectadas, apresentadas e valorizadas junto ao leitor por uma rede de interfaces acumulada e polida pelos séculos. Caso se acrescente ou se suprima uma única interface à rede técnica da escrita em um dado momento, toda a relação com o texto se transforma.”
pierre, lévy, em “interfaces”, as tecnologias da inteligência.
[lembremos, pois, irmãos, que um livro digital pode não ser apenas um livro digitalizado.]
exercício#1: “polir o voo mais que a um ovo”
ela olhou com surpresa a apresentadora do noticiário: quem era aquela mulher para folhear de forma tão íntima aquele livro? falava sobre ele, como se aquele objeto lhe pertencesse inteiramente. tentou não se importar, mas dois dias depois – ou três dias antes? – lá estava o comediante gordo segurando aquele mesmo livro, sorrindo enquanto o passava ao homem a quem chamava autor – um jornalista com aparência distinta e moderna, de fala entusiasmada – e que acreditava que o livro fosse dele. ela pensou em ligar para a emissora, reclamar seu direito de posse, como um marido traído. por menos que gostasse daquele enredo e daquele estilo, aquele era seu livro, e ele estava nas mãos de um desconhecido: de um impostor. nas mãos de um leitor qualquer que jamais saberia a sensação de tocar as entranhas de um livro, percorrê-lo, preenchê-lo, cortá-lo, substituí-lo, conferi-lo página por página, linha por linha, palavra por palavra, letra por letra, ausência por ausência. ninguém ali naquele show de horrores regado a música e comentários pretensamente inteligentes e divertidos jamais havia sido tocado pelo desejo de se apoderar plenamente de um livro: ela sabia. aquilo que pairava suspenso, brilhando entre as mãos do comediante gordo e do autor, era a sua coisa sem defeitos, sem máculas, sem arestas. o objeto perfeito que faria feliz quem o tocasse, como um midas ao contrário: libertador. o objeto polido de devotado amor, que passara dias e dias deitado sobre aquela mesa, a sua, preparada diária e pontualmente para a desinfecção: as provas impressas em papel branco, o original em língua estrangeira, o lápis, a caneta, a borracha, o dicionário, o dicionário, o dicionário. no estúdio do canal 12, ela sabia que aqueles homens se enganavam, sorridentes: aquele livro jamais lhes pertenceria. aquilo ali, brandido, iluminado, era apenas um objeto cenográfico, imprescindível para a pantomima que eles continuariam encenando em outro canal, em outro dia.
bibliomania
Não! não era de modo algum a ciência o que ele amava, mas sua forma e expressão; amava um livro porque era um livro; amava seu cheiro, sua forma, seu título. O que ele amava em um manuscrito era sua data antiga e ilegível, os caracteres góticos bizarros e estranhos, as pesadas douraduras que carregavam seus desenhos; suas páginas cobertas pelo pó, pó cujo perfume, suave e delicado, aspirava com delícia: essa bela palavra finis, cercada por dois Cupidos, encerrada numa fita, apoiada sobre uma fonte, gravada sobre um túmulo ou repousada em uma corbelha entre rosas, laranjas e ramalhetes azuis.
“Bibliomania”, Gustave Flaubert, trad. Carlito Azevedo
pliegues despliegues

pliegues despliegues é um projeto idealizado por gabriela carrión e alicia colmenar. a primeira edição aconteceu em 2008, com poetas/escritores da argentina, espanha e venezuela, e a edição deste ano recebe também poetas brasileiros, com poemas bilingues (português/espanhol).
o pliegue é uma folhinha dobrada, que, se unida a várias outras folhinhas, acaba se transformando em um caderno – daqueles que, juntando, a gente pode costurar ou grampear, colocar capa e transformar em livrinho. é o que a gente aqui no brasil chama de plaquete. o nome do projeto remete à ideia de dobrar e desbobrar o papel, apropriar-se, como achar melhor, dessa folhinha impressa.
a ideia é muito simples (una idea sencilla, como eles dizem, e eu adoro a palavra sencilla, principalmente se falada por argentinos): 10 pessooas são contactadas e cada uma delas prepara seu próprio pliegue, que é uma folha de a4 dobrada ao meio com uma capa que tem o desenho comum a todos. a primeira página funciona como essa capa, e, nas duas páginas seguintes, o autor escolhe o que, em que quantidade e disposição colocar. sempre com bom senso, claro. a primera ronda do projeto está disponível para leitura e download aqui no site delenda est carthago.
depois disso, cada um dos participantes envia seu pliegue às organizadoras do projeto, que são responsáveis pelo trânsito de informações: a cada 15 dias um pliegue novo é enviado a cada um dos participantes, que deve distribuir as plaquetes da melhor forma possível. o legal é que cada autor é distribuído por pessoas diferentes a cada 15 dias. eu, por exemplo, agora estou distribuindo o pliegue de olalla hernández (gijón/espanha), e o leo gonçalves distribui o de andi arias (maracay/venezuela). enquanto isso, olallá e andi nos distribuem nos países deles.
além da coisa toda já ser genial, o projeto me encantou principalmente pela possibilidade que ela dá para o produtor do texto se tranformar também em editor, impressor, divulgador e leitor não apenas de seu próprio trabalho, o que tranforma a coisa toda em uma rede colaborativa de edição. é uma ideia feliz.
bom, os pliegues estão sendo distribuidos pelo leo gonçalves (bh) e por mim (rj). na segunda-feira vou entregar os pliegues em alguns lugares aqui do rio, e aí deixo o endereço para vocês. se alguém estiver fora de bh e rj e quiser receber o pliegue, é só mandar um e-mail, que eu mando a folhinha pelo correio. é grátis, rápido e sem complicação! =)
bueno, chicos, seguimos plegándonos!
Pliegues Despliegues
Pliegues Despliegues é um projeto genial de um pessoal da Argentina, Venezuela e Espanha: cada um dos 10 poetas/escritores convidados imprimem 15 cópias dos livrinhos de outros poetas/escritores que estão participando do projeto. Cada um deles é responsável por distribuir esses poemas/narrativas em suas cidades.
É mesmo genial. Os livrinhos têm um desenho bonitinho, circulam gratuitamente e podem ser colecionados!
Vejam os blogues do projeto: Pliegues Despliegues e Primera Ronda.
Eu não sabia, mas eles também são distribuidos no Brasil – e em BH! Imagino que o Leo seja responsável por isso.
Vejam onde encontrar:
Belo Horizonte
Livraria UFMG
Café de Travessa-Livraria
Usina das letras
Bahia
Pousada Ogum Marinho. Praia do Forte
espelho diário
contei no twitter, mas não aqui: espelho diário, da rosângela rennó e alícia duarte penna, virou livro, meu povo! um bombom editorial =) lançamento em breve!
II LIHED
inscrições até 30/03 para apresentações de trabalhos de II seminário: brasileiro livro e história editorial, que acontecerá entre 11 e 15 de maio na uff. vejam o site do evento.
folha, explica?
Gente,
Venho por meio deste post fazer a linha “leitores do Globo” e propor que a Folha de S.Paulo invista mais e mais em sua série Folha Explica porque ainda tem muita coisa que eu preciso entender.
Primeiras propostas:
- Criação da categoria Celebridades. Iniciando a série com Folha Explica Elke Maravilha.
- Criação (para ontem) da categoria Música. Apostando em artistas relevantes por sua incompreensibilidade com títulos como Folha Explica Preta Gil, Folha Explica Michael Jackson, Folha Explica Locomia, Folha Explica Amy Winehouse, Folha Explica Yoko Ono.
- Ampliação da categoria Comportamento com a criação da subcategoria Auto-ajuda ou Bem-estar (Folha, Explica), lançando ao mesmo tempo 5 títulos para se firmar logo no mercado. São eles: Folha, Explica Esse Vazio; Folha, Explica Essa Angústia; Folha, Explica Meu Cabelo; Folha, Explica Minha Mãe; Folha, Explica Isso Tudo.“Obrigada à gerência”
post inteiramente copiado da cindy
skoob
eu estou realmente maravilhada com o skoob, uma espécie de orkut de leitores. você se cadastra no site e depois pode montar uma estante virtual com os livros já lidos, relidos, com aqueles que você desistiu de ler no meio do caminho ou que espera ler algum dia. além disso, é possível publicar resenhar e outras avaliações dos livros, indicar leituras para os amigos e adicionar pessoas.
e o skoob apresenta vários outros os livros, além dos best-sellers que são apresentados na página inicial. além disso, é possível que o próprio usuário dispobilize os dados de um livro que ainda não esteja no site.
a idéia do skoob foi de um pessoal de brasília. eu não sei se editoras e autores podem se cadastrar no site, de forma a terem um canal alternativo de marketing. de toda forma, é um super incentivo para todos relacionarem leitura a prazer =)
e essa informação sobre o skoob eu encontrei no twitter do publish news.
o livro
Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone uma extensão da voz e finalmente temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém, é outra coisa. O livro é uma extensão da memória e da imaginação. Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala sobre a biblioteca de Alexandria , os livros são descritos como a memória da humanidade. O livro é isto e muito mais, é também a imaginação. O que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Afinal que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? A função do livro é recordar.
Esse é o primeiro parágrafo do livro O livro, de Jorge Luis Borges. Ele saiu como edição comemorativa dos 1.000 títulos da Edusp. E foi essa edição lindinha que acabou de pousar aqui na minha mesa. É um bombonzinho de capa bordô, desses que só o Plínio Martins sabe fazer – mas que parece muito com as edições pequeninas do Espectro Editorial, do Ronald Polito: formato pequeno, miolo costurado em pólen bold, papel de capa com alguma textura e título e autor indicados em etiqueta. Muito sóbrio, muito bonito.
holland house library

“A Holland House foi severamente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e permaneceu em ruínas até 1952, altura em que foi parcialmente reconstruída. A fotografia foi tirada por um fotógrafo desconhecido, que trabalhava para a Fox Photos, uma agência fotográfica londrina.
A Holland House, que faz agora parte de um teatro ao ar livre, foi construída em 1605 por Sir Walter Cope e foi uma das primeiras ‘grandes casas’ de Kensington, tendo sido ocupada pelo exército de Cromwell durante a Guerra Civil Inglesa.
O fotógrafo conseguiu captar o momento em que 3 homens com chapéus de coco alheios a toda a destruição que os rodeia, aparentando alguma calma e descontracção, escolhem e lêem alguns livros que milagrosamente escaparam a mais uma noite do Blitz.”
fiquei impressionada com essa imagem e mais ainda com a história.
o post eu retirei daqui
filho

vejam que lindo o primeiro produto da minha parceria editorial com a brígida: a Revista PPCAAM Minas, para o instituto elo. o formato impresso é 21X28, papel supremo 300 g, 4X1, para capa, e papel pólen soft 80g, 1 cor, para o miolo.
crisálida
minha primeira vez em livraria e editora foi na crisálida, que é comandada com paixão pelo oséias silvas ferraz, editor e livreiro como poucos. bom, hoje percebo quanta paciência o oséias teve comigo, quando cheguei lá revisora e aspirante a livreira, sem nenhuma experiência.
trabalhei lá de 2002 a 2004 (gente, o tempo!…) e fiz bons amigos. gosto de lembrar das risadas (a atac surgiu lá!) e projetos com uba e o milton e das conversas com os clientes (já atendi o odair josé! =).
bom, isso tudo foi porque hoje vi que a crisálida tá com site novo, blog e uma edição nova que achei genial: dicionário toponímico das ruas de belo horizonte. depois passem lá pra ver.
Fim do mundo do fim
Como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas e por fábricas de papel e de tinta, os escribas de dia e as máquinas de noite para imprimir o trabalho dos escribas. Primeiro, as bibliotecas transbordarão para fora das casas; então, as prefeituras resolvem (já estamos vendo tudo) sacrificar as áreas de recreação infantil para ampliar as bibliotecas. Depois sucumbem os teatros, as maternidades, os matadouros, as cantinas, os hospitais. Os pobres aproveitam os livros com tijolos, grudam-nos com cimento e constroem paredes de livros e moram em casebres de livros. Então acontece que os livros transbordam das cidades e entram nos campos, vão esmagando os trigais e os campos de girassóis, o Ministério da Viação mal consegue que os caminhos fiquem desimpedidos entre duas paredes altíssimas de livros. Às vezes uma parede cede e há espantosas catástrofes automobilísticas. Os escribas trabalham sem trégua porque a humanidade respeita as vocações e os impressos já chegam à beira do mar. O presidente da república telefona para os presidentes das repúblicas e propõe inteligentemente jogar no mar o excedente de livros, o que se faz ao mesmo tempo em todas as costas do mundo. Assim os escribas siberianos vêem seus impressos jogados no oceano glacial e os escribas indonésios, etc. Isso permite aos escribas aumentarem sua produção, porque volta a haver espaço na terra para armazenar livros. Não pensam que o mar tem fundo, e que no fundo do mar começam a amontoar-se os impressos, primeiro em forma de pasta aglutinante, depois em forma de pasta consolidante, e finalmente como um chão resistente embora viscoso, que sobe diariamente alguns metros e acabará por chegar à superfície. Então, muitas águas invadem muitas terras, produz-se uma nova distribuição de continentes e oceanos, e presidentes de diversas repúblicas são substituídos por lagos e penínsulas, presidentes de outras repúblicas vêem abrir-se imensos territórios a suas ambições, etc. A água do mar, tão violentamente obrigada a espalhar-se, evapora-se mais do que antes, ou procura repouso misturando-se aos impressos para formar a pasta aglutinante, a tal ponto que um dia os capitães-de-longo-curso percebem que seus navios avançam lentamente, de trinta nós descem para vinte, para quinze, e os motores arquejam e as hélices se deformam. Afinal, todos os navios param em diferentes pontos dos mares, encalhados na pasta, e os escribas do mundo inteiro escrevem milhares de impressos explicando o fenômeno, cheios de uma grande alegria. Os presidentes e os capitães resolvem transformar os navios em ilhas e cassinos, o público vai a pé, por cima dos mares de papelão, para as ilhas e os cassinos onde orquestras de música típica argentina e de música local amenizam o ambiente refrigerado e se dança até altas horas da madrugada. Novos impressos se amontoam à beira do mar, mas é impossível metê-los na pasta, e assim crescem muralhas de impressos e nascem montanhas à beira dos antigos mares. Os escribas percebem que as fábricas de papel e de tinta vão falir e escrevem com uma letra cada vez menor, aproveitando até os cantos mais imperceptíveis de cada papel. Quando a tinta acaba, escrevem a lápis, etc.; ao acabar o papel, escrevem em tábuas e ladrilhos, etc. Começa a difundir-se o hábito de intercalar um texto em outro para aproveitar as entrelinhas, ou se apagam com lâminas de barbear as letras impressas, para utilizar novamente o papel. Os escribas trabalham devagar, mas são em tal quantidade que os impressos já estabelecem uma nítida separação entre as terras e os leitos dos antigos mares. Na terra vive precariamente a raça dos escribas, condenada a extinguir-se, e no mar estão as ilhas e os cassinos, isto é, os transatlânticos onde se refugiaram os presidentes das repúblicas, e onde se celebram grandes festas e se trocam mensagens de ilha a ilha, de presidente a presidente, e de capitão a capitão.
- Julio Cortázar, Histórias de cronópios e de famas.
trad. Gloria Rodríguez.
A versão que eu postei achei aqui.
esse conto ilustra maravilhosamente a sensação que tenho quase sempre, a de que os livros se apossarão do mundo em breve.
enciclopédia visual

wlademir dias pino está catalogando todas as imagens existentes no mundo e arquivando-as em pastas como a da foto acima, guardadas em armários no sótão da casa dele. é o caso verídico do homem que construiu um livro infinito acima de sua própria cabeça e que morrerá sem concluir sua obra.
era o medo o
acho ótemo o texto no site da cosac naify que explica o procedimento para envio de originais, leia aqui.
se um autor resolver ligar pra lá, pra conferir se os originais chegaram, o que será que acontece? tenho a impressão que a secretária entra na sala do charles cosac e aperta por ele o botão que enviará por sedex 10 uma bomba biológica (mofo de livro do século XV) direto na casa do autor, com a mensagem:”cale-se para sempre, insolente!”…
um pouquinho delicadeza não faz mal a ninguém, né não?
capas

veja no the book design review as melhores capas de livros lançados no mercado internacional em 2008.
eu voto nessa da macmillan para o livro do zizek.


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