onde andará dulce veiga?

um ano entre os humanos

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em novembro 29, 2010

você já sabe que pode, mediante exercícios diários, e sob condições especiais, tornar-se mais humano? a filha da madonna é humana? você beberia sangue humano? pensa que um facínora humano saberia distinguir o sangue de uma barata do de um homem humano? de onde você extrai a certeza de que sua mãe é humana? a barbie é humana? você acreditaria se lhe dissessem que michael jackson, quando bebê, tinha feições humanas? o que faz de um humano, humano? charles darwin era humano? você comeria carne humana? seu médico é humano? negros são humanos? se você dispusesse de tempo e paciência bastantes para permanecer na fila de inscrição para um programa de auto-clonagem financiado pelo s.u.s.. gostaria que seu clone tivesse quais de suas qualidades consideradas humanas? e quanto a se casar com um humano? você acredita em humanos? errar é humano? acha que um cyborg digno desse nome conseguiria viver mais de um ano entre os humanos? os sonhos dos políticos são da mesma matéria de que são feitos os sonhos dos humanos? aparelhos de tv podem, por sua própria vontade, imitar, com êxito, vozes humanas? qual bicho ou máquina você gostaria de ser, caso não fosse humano? o corpo humano, para você, também é máquina? o “super homem” é humano? você, que acha que cachorros e computadores conectados à grande rede são os melhores amigos dos humanos, deixaria sua mulher ir ao cinema com seu cachorro ou com seu micro? humanos que matam humanos são inumanos, desumanos, humanos–feras ou apenas humanos? e os que clonam humanos? você faria filhos pós-humanos com um(a) cyborg? você aceitaria misturar seus hormônios humanos aos de um touro, para dessa forma assegurar a seus prováveis descendentes uma quota mais abundante de leite? esse chip em seu cérebro ou sua alma imortal – o que, no fim das contas, faz de você um humano? você é humano?

adoro esse texto-performance do ricardo aleixo, que me faz pensar em questões profundíssimas nestes tempos.

cariocas

Publicado em coisas da vida, escritos de outrem por letícia féres em agosto 21, 2010

Como vai ser este verão, querida,
com a praia, aumentada/ diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
O Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a) mo (r) cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor de flor em cor e albor.
Um rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de seqüestro e bomba?

-  do drummond, meu vizinho

daqui

o jogo da amarelinha

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em julho 16, 2010

«¿Y a esto le llamabas búsqueda? ¿Te creías libre? ¿Cómo era aquello de Heráclito? A ver, repetí los grados de la liberación, para que me ría un poco. Pero si estás en el fondo del embudo, hermano.» Le hubiera gustado saberse irreparablemente envilecido por su descubrimiento, pero lo inquietaba una vaga satisfacción a la altura del estómago, esa respuesta felina de contentamiento que da el cuerpo cuando se ríe de las hinquietudes del hespíritu Y se acurruca cómodamente entre sus costillas, su barriga y la planta de sus pies. Lo malo era que en el fondo él estaba bastante contento de sentirse así, de no haber vuelto, de estar siempre de ida aunque no supiera adónde.

Rayuela, Cortázar

frio, coração gelado?

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em junho 15, 2010

coisinhas fofas pra derreter o coração

o que o cão não é

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em junho 7, 2010

o cão é o max, a foto é da marta egrejas

2 poemas que instauram meu mundo

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em junho 6, 2010

O segredo

Quando você estava dormindo no sofá,
coloquei minha orelha na sua e ouvi
o eco dos seus sonhos.

Nesse oceano é que eu quero mergulhar, unir-me
com peixes brilhantes, plânctons e navios piratas.

Procuro entre as pessoas na rua
alguém com seu jeito e pergunto
as coisas que queria perguntar a você.

Podemos sentar num telhado e ver as estrelas
dissolvendo na fumaça que sobe da chaminé?

Posso enredar-me como Tarzan
na floresta dos seus suspiros?

Não queria estar em seus braços.
Queria era ir pedalando uma bicicleta
direto pros seus braços.

Jeffrey McDaniel, tradução Mauro Faccioni Filho

*

*        *

para o Dragan Bécirovi’c

A paixão
não precisa
de pão

A paixão
é um espinho
no coração

A paixão
quer
a mão

Era uma vez
uma paixão
tão boa
que com a mão
dava pão
ao coração

Adília Lopes

@passarim

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em maio 1, 2010

Afonso

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em abril 28, 2010

Afonso era um sujeito previsível. Determinado a quebrar a rotina, certo dia amarrou o refrigerante no poste e entrou na padaria para comprar um cachorro.

- da Juliana Coelho

Susana saindo do banho

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em março 24, 2010

Os dois grifos de níquel – aves exóticas agarradas à pele reluzente da banheira – olhavam, pensativos, já sem água quente ou fria, o abandono dramático de sua cabeça. Cabeça de algas rubro-verdes que flutuavam fugindo na concavidade de porcelana.

A água, nem quente nem fria, cantava em suas orelhas, rosadas e ternas conchas, uma canção inquieta. Agitava a água para desviar suas formas; multiplicava cada perfil em ondulações líquidas e cerceava  sua garganta com um fio verde: a cabeça, morta – mortos os olhos em um sono marítimo – sobre uma bandeja de cristal.

Um minuto, elástico e iminente.

Surgiu um braço, como um sinal. Sulcado de veias e jorrando. (Os cindo dedos, cinco raízes cravadas na esponja.) Abriu a mão, e a esponja – estrela vermelha – naufragou em uma morna aurora de carne e porcelana.

A mão adaptou sua carícia úmida à curva do contorno. Nasceu naquele mapa claro a ilha de um ombro. E o colo, metálico. Sobre o peito – página de mapa-múndi – dois hemisférios tremeluziam em água e carmim. O ventre em ângulo e os joelhos paralelos…

Susana, pisando a água, soltou uma perna sobre a borda com gesto audaz de ciclista, para colocar seu pé, azul e rosa, na prancha de cortiça, sem cor nem temperatura.

Alta, quieta já (enquanto a água, livre da cadeia, se apresssava cantando sua condenação pelos tubos de órgão) era admirada do espelho, confinado em sua elipse de celuloide; do  lavatório ondeado no qual se entediava um sabão preto e do assento redondo e vegetal.

Cobriu-se com uma extensa dobra branca. Acima, a cabeça: molhada e trágica medusa. Abaixo, os pés, apontados em triângulo.

O espelho sorria, como uma janela, sobre a mesa de vidro.

***

Traduzi esse texto de um exemplar fac-símile da primeira edição (janeiro de 1929) do livro de contos El boxeador y un ángel, de Francisco Ayala. A edição que tenho aqui foi publicada pela Biblioteca Nacional da Espanha em 2006, em comemoração aos 100 anos do autor.

Gostei muito desse texto principalmente pela força das imagens, tão objetivas, precisas, quanto poéticas.

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em março 13, 2010

peguei daqui

poro

Publicado em classificados, escritos de outrem por letícia féres em fevereiro 28, 2010

os meninos da aic produziram um documentário lindo sobre o poro:

(saudade da brigitte e do marcelo!)

se você quiser conhecer mais o trabalho do coletivo, dê uma passadinha e baixe o catálogo desvios do discurso


mais informações aqui

a estética do laquê

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em fevereiro 12, 2010

com dancinha de mcnamara

júbilo, memória, noviciado da paixão

Publicado em coisas da vida, escritos de outrem, sobre poesia e literatura por letícia féres em fevereiro 3, 2010

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E por isso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e por isso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

*

*             *

amanhã é o quinto aniversário de morte de hilda hilst.

e ela ainda permanece tão viva. 

devires

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em janeiro 27, 2010

Interior/Composition, de Carin Blücher.

o livro ao limite

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em janeiro 24, 2010

ex-livro?/ex-máquina? de eric collette

(não sei o título da obra!)

shugo tokumaru

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em dezembro 31, 2009

acabei de descobrir o shugo tokumaru. achei as músicas dele delicadas, ainda que pop e “discursivas”.

le retour à la raison

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em dezembro 2, 2009

este é o primeiro filme de man ray com kiki de montparnasse, produzido a pedido de tristan tzara.

(estou absolutamente apaixonada pela história da vida libertária da kiki.)

em busca do fogo (novamente)

Publicado em escritos de outrem, sobre poesia e literatura por letícia féres em novembro 23, 2009

Texto 1

Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão

da voz

a insinuação de um gesto uma temperatura

à sua extraordinária desordem preside em pensamento

melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)

mas de ”moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”

não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”

uma ideia organizada um cânone

queremos sugerir coisas como “imagemde respiração”

“imagem de digestão”

“imagem de dilatação”

“imagem de movimentação”

“com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era

uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre

algo como o confessado amor das palavras

no centro

não tentamos criar abóboras com a palavra “abóbora”

não é um sentido propiciatório da linguagem

introduzimos furtivamente planos que ocasionais

ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho

para antigas explicações ”discursos de discursos de discursos” etc.)

fixemos essa ideia de “planos”

podemos admiti-los como “uma espécie de casas”

ou “uma espécie de campos”

e então evidente para serem habitados percorridos gastos

será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?

uma vez se designou mão para que a mão fosse

uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse

uma vez o discurso foi a mão

partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário

era esse o ”espírito” o ”destino” da linguagem

agora estamos a ver as palavras como possibilidades

de respiração digestão dilatação movimentação

experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente

“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém

estão a falar a andar umas com as outras

a falar umas com as outras

estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência

para todos os lados

sugque comporta uma certa inflexão

de voz

é uma espécie de cinema das palavras

ou uma forma assustadoramente juvenil

se calhar vão destruir-nos sob o título

“os autômatos invadem” mas invadem o quê?

Herberto Helder, Antropofagias, p. 321-322

learn something every day

Publicado em coisas da vida, escritos de outrem por letícia féres em outubro 30, 2009

abba

adorei os “minutos de sabedoria” do projeto learn something every day.

dica da rebeca bolite.

o homem absurdo

Publicado em escritos de outrem por letícia féres em outubro 30, 2009

…”Tudo é permitido”, exclama Ivan Karamazov. Também isto cheira a absurdo, desde que não seja entendido de maneira vulgar. Não sei se ficou claro: não se trata de um grito de libertação e de alegria, mas de uma constatação amarga. A certeza de um Deus que daria seu sentido à vida ultrapassa em muito a atração do poder de fazer o mal impunemente. A escolha não seria difícil. Mas não há escolha e então começa a amargura. O absurdo não liberta, amarra. Não autoriza todos os atos. Tudo é permitido não significa que nada é proibido. O absurdo apenas dá um equivalente às conseqüências de seus atos. Não recomenda o crime, seria pueril, mas restitui sua inutilidade ao remorso. E também, se todas as experiências são indiferentes, a experiência do dever é tão legítima quanto qualquer outra. Pode-se ser virtuoso por capricho.

- Albert Camus, O mito de Sísifo

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