.mariana não é jem.
.chamilly não é holograma.



Tudo acabado
Tudo acabado entre nós
Já não há mais nada
Tudo acabado entre nós
Hoje de madrugada
Você chorou e eu chorei
Você partiu e eu fiquei
Se você volta outra vez
Eu não sei
Nosso apartamento agora
Vive à meia luz
Nosso aparamento agora
Já não me seduz
Todo o egoísmo
Veio de nós dois
Destruimos hoje
O que podia ser depois.
(J. Piedade e Oswaldo de Oliveira)
…………
mariana alcoforado pode ser ouvida à noite cantando essa música enquanto exerce suas funções de dona de casa. os vizinhos acreditam que ela sofre muito por um amor que se acabou. não dizem nada, mas no olhar deles há um tom de condolência. mariana também não diz nada. e retribui o olhar dolorido, em respeito a uma dor que é a deles.
…
mariana come suspiros enquanto rabisca. a caneta manchando o papel fino. escreve.
colocarei uma camisa de flores enquanto espero você.
chamilly não entendeu o trocadilho.
mariana alcoforado
todo dia ela chega em casa e olha a caixa de correio. sempre vazia. a caixa, claro. a irmã diz sempre que você chega você olha sua caixa de correio. e sempre está vazia. mariana responde que é a sina.
a mãe de mariana pergunta se não tem uma música mais alegrinha. mariana diz que não tem jeito. dor-de-cotovelo. no máximo uma marchinha falando de amor. a mãe insiste. mariana coloca elis regina cantando triste é viver na solidão.
mariana coloca o amor no correio. a carta extravia. e o amor fica sem saber se é ou não é.
mariana gosta muito de roubar frases de amor. talvez por isso as suas sempre cheguem ao destinatário errado.
mariana conta que escreveu
olho para você. você me pergunta o que é que há, sempre um pouco vigilante, quando olho para você. digo que não há nada, que olhava para você por prazer:
- não sei se o amor é um sentimento. às vezes acho que amar é ver. ver você.
mas chamilly não manda sequer uma foto 3X4 na neve.
17 Dec 2004
From: Chamilly
To: Mariana Alcoforado
Subject: Re: meu amor!
Date: Fri, 17 Dec 2004 12:21:42 -0300 (ART)
(…)
as vezes acho q essa cidade tem um pouco clima de twin peaks, tudo mto perfeitinho, com os podres todos debaixo do tapete.
o lugar onde a gente mora eh tipo uma vila cheia de casinhas de madeira. tem um tanto de brasileiros alugando casinhas lah. tem um rio lindo que passa no meio da vila e eh cheio de patinhos. domingo nevou mais forte e ficou tudo branquinho. ontem fez sol e ceu azul, estava lindo. me dah o endereco de alguem pra quem eu possa te mandar carta e postal.
(…)
longa viagem invernal
chamilly continua sua longa jornada invernal. de beja até os cassinos dos iankees. em poucos dias chegará à neve. verá se os casais novaiorquinos realmente comem torradas com ovos em seus apartamentos de tijolos à mostra ao som de lover come back to me. promete não se casar com um belga, principalmente se ele for um canário. mandará um postal e uma foto com um boneco de neve com cenoura no nariz. contudo, mariana alcoforado não os receberá.
receitas de amor
mariana engordou de amor. está rosa e arredondada como um morango. culpa da maravilhosa torta de chantilly da chamilly.
maravilhosa torta de chantilly do chamilly
1) compre suspiros deliciosos. ou então suspire você mesmo.
suspiro de amor de mariana alcoforado
- bata na batedeira (a menos que você seja forte como aquelas mulheres que batem manteiga na roça ou como aqueles homens que batem manteiga na roça) um copo de açúcar refinado (que tenha freqüentado as melhores escolas de frankfurt, que isto fique bem claro) para cada clara de ovo.
- coloque raspas de limão, se possível.
- não bata muito, senão vira marshmellow.
- forre a forma com papel manteiga. asse os suspiros por um tempo bom (chuvoso não vale). de preferência em fogo bem alto, pois assim eles ficarão com aquele meio molinho.
- suspire de amor, se possível.
2) forre uma forma com os deliciosos supiros. os seus e de seu amor.
3) cubra os suspiros, abafando-os com morangos cortados (mas nunca mofados) e colhidos na hora – se possível, é sempre bom lembrar.
4) cubra os morangos (que estão abafando – e sabem disso) com o maravilhoso chantilly de chamilly.
maravilhoso chantilly de chamilly
- bata creme de leite fresco com um pouco de açúcar até você perceber que virou chantilly. não bata muito, senão vira manteiga.
5) leve à geladeira. para gelar, é claro.
6) não deixe muito tempo na geladeira, senão os suspiros derreter-se-ão de amores pelos morangos. e não é bem isso que você quer, não é mesmo?
New York, New York
Três graus à sombra. Vinte e oito debaixo do cobertor. Mariana e Chamilly estão em Nova Iorque. Vivem num daqueles apartamentos de tijolos escuros à mostra com uma escada de incêndio externa. Não ouvem Frank Sinatra. Não andam pela Quinta Avenida. Comem torradas, ovos mexidos e bolo inglês com geléia Queensberry, pela manhã, enquanto Billie Holiday canta Lover, come back to me. Eles não sabem se é assim que se vive em Nova Iorque em tempos de nevasca. Pode ser que não. Provavelmente os nova-iorquinos coloquem toucas coloridas na cabeça e saiam para a rua pelados, para dançar fado. Mas isso não importa. Os telefones tocam e eles não atendem. Não neva no coração de Mariana e Chamilly.
era uma casa muito engraçada
chamilly chegou com iaiá, a gata siamesa e branca. iaiá não mia: pia. é uma gata-passarinho. lóri, a gata da casa, virou uma cobra naja, arrepiada nos seus ciúmes. mariana não chia nem pia. nem pensa nos problemas do mundo enquanto os dias passam nos braços do seu cavaleiro de frança.
mariana
mariana agora tem aulas de francês com um professor bastante particular.
chamilly não permitiu que mariana lesse as cartas
chamilly não permitiu que mariana lesse as cartas. “se você quer me ler, há modos melhores para isso”. rasgou-as em pedaços milimétricos. ateou fogo. não às vestes, que isso fique bem claro. colocou um disco na eletrola. aumentou o volume. um tango do piazzola.
happy end
chamilly chegou a passos lentos, longa viagem invernal até beja. “antes tarde do que nunca”, mariana pensou. não eram as testemunhas de jeová. não era a publicidade. era simplesmente chamilly apaixonado. trazia na mala todas as cartas que escrevera a mariana. e que, fatalmente, o carteiro esquecera no meio do caminho.
…
o envelope
lacrado.
a carta
rasgada.
escrevo:
“vali-me de mesuras para receber seu amor.”
recorto.
mil vezes a frase rasurada.
“já tão sem frescuras recebo seu amor.”
repito:
“não é coisa de dama da corte. aguardo resposta até o mês que vem.”
apago
rabisco
borro seu nome no envelope
a lágrima a tinta marcada.
cultivo eternas juras de amor
que você não leu.
…
digo piu piu
você nem um pio
não é santo
meu amor
você não vem?
à espera da caça
olho ao longe:
já tão longe o seu amor.
repito:
escudo forca remetente:
e você devolve a carta
ao rapaz do ect.
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