onde andará dulce veiga?

razões adicionais para o amô/razões adicionais para blanchot

Publicado em cartas de amor, coisas da vida, sobre poesia e literatura por letícia féres em abril 22, 2009

de cindyleopoldo@gmail.com
para leticiaferres@gmail.com
data 22 de abril de 2009 10:29
assunto “Salvando”, em nome de Jesus
enviado por gmail.com

Estava lendo a introdução do Formação da Literatura Brasileira, do Antonio Candido, e pensando nas duas páginas iniciais que tava lendo na manhã de segunda (Sobre o nomadismo: Vagabundagens pós-modernas, de Michel Maffesoli). A ligação se deu quando o Antonio Candido disse que passou 6 anos escrevendo o livro e eu fiquei pensando como isso vai contra todo o universo cultural médio que nos bombardeia e mantém em cativeiro: jornais, tv, revistas, livros, internet etc.

Fiquei feliz quando li o Maffesoli dizer sobre o “fast food teórico”. Ok, já cansei de ouvir sobre isso, mas veio agora em um bom momento, em que eu tenho pensado muito sobre a vida fast food que colegas e família te cobram viver. Você tem que sair, encontrar amigos, visitar a família, ver todos os filmes, exposições, conhecer as bandas novas, saber tudo sobre o mercado em que atua, falar todas as línguas possíveis, ganhar mais dinheiro sempre, fazer sexo, beber álcool, estar em ambiente com barulhos… Você não pode parar e se concentrar calado, sozinho e em silêncio porque essa não é a imagem positiva, essa é a imagem do sofrimento, da solidão, do infeliz.

É um inferno. O positivo é estar desfocado, com muita gente falando ao mesmo tempo, fazendo muitas coisas ao mesmo tempo e, se possível, entorpecido de alguma maneira. Sua opinião tem que ser dada imediatamente, tem que ser curta e seguir a receita do que parece inteligente: ser irônico, parecer desinteressado, usar humor pra explorar possíveis absurdos de modo que tudo pareça absurdo e seja uma prova de que “nada faz sentido e por isso o lance é aproveitar a vida”.

Se antes era só uma questão cultural fast food, agora é uma forma de levar a vida, o “eu não me estresso”. As amizades fast food, os namoros fast food, as inimizades fast food, as relações cotidianas familiares ou não fast food… Isso me leva ao suicídio, acho, em até 3 meses. Isso é o que eu chamo de solidão, uma falta grave de concretude, de realidade interna, ou, mais bonito, de narrativa interna. Sempre que me perco em ilusões e gritarias e dentes expostos em sinal de felicidade, eu volto pro meu livro interno, que só devo acabar de ler e escrever quando eu morrer, ou nem aí. Daí eu volto a ler onde nasci, como foi a infância, o que eu queria naquela época, do que eu sempre gostei e tento novamente me ligar ao que eu sou pra me afastar dessa loucura triste.

E nada disso me salva de ser rasa. Só me salva do suicídio. Mas a dificuldade para ler mais de duas páginas ou só a introdução permanece. É um caralho de um esforço contínuo tentar pensar sempre na mesma coisa e fazer esse pensamento progredir, se aprofundar. Poucas vezes sinto minha mente realmente se aprofundando, tentando se ultrapassar. Acredito que preciso de um mestrado (engenharia de produção ou teoria da literatura, tanto faz) para me forçar, o que é uma vergonha para a humanidade, que já teve por exemplo a Civilização Grega e agora tem eu tentando manter um pensamento.

é o amorsh

Publicado em cartas de amor, coisas da vida, samba e canção por letícia féres em janeiro 31, 2009

amor_sings

meu eu-podo cast, o dipindura, tava meio caidinho… eu sem tempo de fazer coisas nele… aí, hoje, sexta-feira e meu amor lá longe… resolvi fazer uma serenata com três musiquinhas felizes… a serenata tá aberta a vocês também, sejam bem-vindos =)

este blog está se transformando numa grande sessão de videos

Publicado em cartas de amor, coisas da vida, samba e canção por letícia féres em outubro 7, 2008

dulcíssimo

Publicado em cartas de amor, classificados, coisas da vida, escritos de outrem por letícia féres em outubro 23, 2007

O eterno problema dos carteiros

O eterno problema dos carteiros é não saberem onde guardamos
o nosso amor. Olham os envelopes com os bigodes espantados
e acariciam-nos, violentamente, com carimbos de regresso à solidão.
Estão fechados em casas de janelas vermelhas e saem à rua de farda.
Pisam o chão com a mesma decisão de um exército perdido na batalha
anterior e tocam, tocam muito, às campainhas de quem não está.
O eterno problema dos carteiros são os sacos sem fundo
onde a nossa letra se torna irreconhecível de tão escuro.
Os selos abraçam-se e fogem para o paraíso dos selos,
as letras dançam ao sabor do esquecimento e não se sabe nunca
onde está o remetente e o destinatário. Nos gabinetes, uma vez mais,
bigodes sisudos e derrotados, têm os dedos feios e duros ao toque.
Eu não poderei nunca saber, mas juro que os envelopes choram.
O eterno problema dos carteiros é não terem asas para subir às janelas
das amadas, que se penteiam longamente em frente aos espelhos velhos das avós.
Não poder ser anjo anunciador, nem mágico, navegante, descobridor.
E talvez lhes pese o bigode insólito e burocrático, o pêlo encravado
sobre o lábio. Eu continuo a lançar envelopes em branco da varanda.

- Luís Felipe Cristóvão, E como ficou chato ser moderno

o amor

Publicado em cartas de amor, escritos de outrem por letícia féres em outubro 7, 2007

por sally e snoopy

o amor

Publicado em cartas de amor, escritos de outrem, sobre poesia e literatura por letícia féres em outubro 6, 2007

 por éluard e godard.

carta anônima

Publicado em cartas de amor, coisas da vida, escritos de outrem por letícia féres em julho 5, 2007

tinha tanto tempo que eu não pegava um desses ônibus que demoram hora e meia pra chegar em algum lugar; tinha tanto tempo também que não apareciam as malditas borboletas no meu peito. enfim, depois do almoço encostei a cabeça no vidro do ônibus e vim pensando nas coisas da vida com aquele mesmo sentimento da carta anônima do caio fernando abreu.  

(há alguns anos, quando tomei conhecimento dessa tal carta, inventei um e-mail e enviei, anonimamente, esse texto para quem eu tinha o endereço. enviei porque achei que meus amigos fossem gostar de receber uma carta assim, mesmo não sendo de verdade; mesmo sem saber quem era o remetente. parece coisa de filme, mas teve até gente revelando amor secreto. uma loucura, deu uma confusão danada.

e por incrível que pareça eu ainda não havia postado a carta aqui.)

taí.

CARTA ANÔNIMA

Para ler ao som da
Melodia Sentimental, de Villa-Lobos,
cantada por Olívia Byngton

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas são sempre bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, agora não, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés delas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro). E fico tão abalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você — seria, seriam?

Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito poder de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos mesmo meio tudo isso, não tem jeito, e tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byngton cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagall que Van Gogh, mais Jarmush que Wim Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se tivesse à bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormir vezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

LÍLITCHKA!

Publicado em cartas de amor, escritos de outrem por letícia féres em março 24, 2006

EM LUGAR DE UMA CARTA

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto -
um capítulo de inferno Krutchônikh.
Recorda -
Atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

26 de maio de 1916. Petrogrado.

- Vladímir Maiakóvski, trad. Augusto de Campos. Poesia Russa Moderna.

 

as cartas de amor

Publicado em cartas de amor, escritos de outrem por letícia féres em agosto 31, 2005

9.10.1929

Terrivel Bébé:Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha tambem. E é bonbon, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bébé deve escrever-te sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguem gosta de mim, e tambem porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e o ponto final ate recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um individuo com ventas de contador gaz e expressão geral de não estar alli mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bébé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma creança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim

Fernando

banzo

Publicado em cartas de amor, escritos de outrem por letícia féres em maio 16, 2005


e aí, matilde
como está?
penso que já está habituada
não sente mais minha falta?
não sente?
eu também não sinto nada
tô te escrevendo apenas
por acaso
ia passando
vi sua foto
me deu banzo
sabe dessas crises
de saudade e nostalgia
já não tinha isso
há muitos dias
escrever procê

foi uma prova
se cê pensa que foi fácil
foi fácil uma ova
eu fiquei lá durante dias
mergulhado num dilema
escrevo, não escrevo
escrevo, não escrevo
escrevo!
‘té que valeu
a carta ficou boa
dá procê ver
que eu sou outra pessoa!
também eu tava muito alucinado
né, matilde?
eu via o seu vulto
toda noite!
hoje quando vejo
já nem ligo
eu converso com seu vulto
hoje somos bons amigos
cê não sabe
eu estou mais calmo
e totalmente envolvido
com o trabalho
já tenho outra menina
não é linda
mas já dá pra quebrar o galho
inda não temos problemas de casal
tudo que eu faço
ela ainda acha legal
é que no começo
é assim mesmo
né, matilde?
é só depois que vira
um temporal
enfim, matilde
a minha transa é esta
você acha que dá certo
ou cê acha meio besta?
pode falar
você só vai ‘tar me ajudando
eu nem ‘tou muito empolgado
aliás já é tempo
de você me contar tudo
do seu lado
que que cê faz
na hora de dormir
cê pensa em alguém
por exemplo, pensa em mim?
pode me dizer com sua franqueza de costume
não tenho mais nenhum ciúme
e se você já tem outro carinha
quero que jogue no fogo
essas mal traçadas linhas!

(luiz tatit)

Publicado em cartas de amor, escritos de outrem por letícia féres em abril 14, 2005

Há algumas manhãs em que o cheiro de sua roupa me inebria. Sinto-me transportado pra um mundo farto em desmaios. Seu cheiro me dá confiança. Passo a viver a vida meio tom acima.

(joão silvério trevisan, vagas notícias de melinha marchiotti)

quem disse que mariana não recebe cartas?#2

Publicado em cartas de amor, coisas da vida, escritos de outrem por letícia féres em abril 14, 2005


meu amor me exige cartas como se fosse possível escrever sobre o papel em brasa. não sabe que vivo presa no barulho do aquecimento, da lama que fica depois da neve. que hoje é carnaval e só tenho silêncios por dentro, enquanto meu cabelo cresce sem as suas mãos.

PINK PILLS FOR PALE PEOPLE

Publicado em cartas de amor, literatices por letícia féres em março 30, 2005


pastiche em branco e preto

porque gostamos tanto desses mecanismos já criados, já nos debruçamos tanto tempo sobre nossos próprios cadáveres, remoemos palavras actos gestos reflexos, e agora esse gosto de sem ana, blues na boca. porque gostamos dele, não é? tanta coincidência só podia dar em cama mesmo. você diz isso podia ser do caio. que caio, penso eu? e é. nesse abismo sonoro flutuante de músicas mal-dormidas. sou um homem comum, e só caetano e josé ribamar ferreira pra me ajudar numa hora dessas. sua vida roda repetida: o projetor superoito filme da copa de setenta: voc|ê grita urrú! sob o reflexo daquele gol que não sei mais. que nunca soube. o gol apagado, aquele que não soube. o povo quer o espetáculo. panem et circences: a gente chora, mete bala, espanca e adora. a terceira margem do rio, pensei hoje cedo. abri correndo waly & oiticica & torquato & a gente lá. mas você me pergunta, conhece joão do rio? o ponto da pândega do rio de janeiro. a praça tiradentes. lá você se esbalda, cazuza. não foi isso que te disseram naquele dia? cazuza. você na lapa. doismilecinco e você, cazuza na lapa, anacronicamente. um encontro entre seu projetor oito milímetros e os livros do caio. fernando abreu, claro. porque gostamos tanto. e seria bonito fazer uma lareira com folhas cre-pi-tan-do. não, não é romance inglês. estamos aqui demonstrando nossos parcos conhecimentos literários, não é isso, baby? que bonito uma lareira com folhas de livros de caio e oscar. wilde, claro. podia ser tio-avô do caio, você disse, entre o barulho morno das folhas cre-pi-tan-tes, o som de hinos sobre o zodíaco, fluminense, não-sei-quê-mais. mas gostas de mim, não é? só que você não é joão do rio, baby. não é cazuza na lapa-doismilecinco. não é james-joyce-trôpego no largo da carioca. não é. o trocadilho é péssimo, mas não resisto. eu não caio mais nessa de samba-canção derramado, meu amor. porque gostamos tanto. de juras fingidas. das fricções que imaginas. a voz rouca de ângela ro-ro saindo pela janela enquanto te jogas sobre o vidro do carro: louca, tu és. não, baby, talvez a letra não seja exatamente assim. mas nem tudo é assim como a gente imagina. (que pena). e eu não estou a fim de ver cinema. passo noites em claro à beira do teu corpo bronzeado. entre mel & girassóis, honey. mas tudo tão agridoce. saudades de audrey rép-bãrnnn, de você, minha bonequinha de luxo. não, não és, mas vai ser. louca, tu és. não, mas vais ser. gata-mistério. não és, mas vai ser. take the mystery train, in the smoke, on the copacabana beach – você no front. avant la lettre. avant-garde. aguardo resposta sua no mês que vem.

17 Dec 2004

Publicado em cartas de amor, coisas da vida, escritos de mariana e chamilly por letícia féres em dezembro 22, 2004

From: Chamilly
To: Mariana Alcoforado
Subject: Re: meu amor!
Date: Fri, 17 Dec 2004 12:21:42 -0300 (ART)

(…)

as vezes acho q essa cidade tem um pouco clima de twin peaks, tudo mto perfeitinho, com os podres todos debaixo do tapete.

o lugar onde a gente mora eh tipo uma vila cheia de casinhas de madeira. tem um tanto de brasileiros alugando casinhas lah. tem um rio lindo que passa no meio da vila e eh cheio de patinhos. domingo nevou mais forte e ficou tudo branquinho. ontem fez sol e ceu azul, estava lindo. me dah o endereco de alguem pra quem eu possa te mandar carta e postal.

(…)

três de amor

Publicado em cartas de amor, poetazia por letícia féres em abril 13, 2004

I.

e porque a seda

do seu papel jornal

não me era cara

não matava minha sede

não dava em nada

borrei algumas

letras

estampei algumas lendas

naquela camisa velha

de que você nem mais

se lembra

que rasguei naquele dia

por pura

covardia.

II.

agrupo

palavras

esqueço

soletro

cada letra do verso

beijo o teto

a sola do seu sapato

 

leio

o tímido

verso antigo

e lembro

 

ser menos que um alento

puro contratempo

talvez

ver a si

me vendo

nessa mancha no retrato

 

III.

CARTA SOLITÁRIA DO SUL DA AMÉRICA
(longe da China desejada)

Porque eu disse: vou te ver. Nem que seja no fim dos tempos. Ou naquele supermercado em Pequim. Você riu naquele dia e eu já via seu rosto entre vermelhos e amarelos. Uma única certeza gritava: vou te ver no fim dos tempos.

Sentei e a dança era outra. Dei uma de simpática, comentei sobre o onze de setembro. “No Chile?”, e a sala dava voltas. Gritos profundos emergiram das cicatrizes. Num estrondo, ratos invadiram a sala. Fugitivos se afogavam sob o queixo da chilena. Coloquei alguns canários na eletrola. Ninguém dançou. “Em tempos como este ninguém vai rir”, disseram.

Ainda tentei a contradança. Uma volta na esquina enquanto a vida rodava no olho. Dei de ombros, fugindo de meus passos. Desenhei um vulto: entrecortado de suspiros. Não foi nele que te vi. Saí correndo à procura. “Nós, os exilados da cheia!”, descobri no chão. A cidade devorava

corpos degustando o tempo. Borrada de batom, uma flor caía na esquina. Olhei o rosto: vermelho pisado. Esquivou-se: “Procura vida? Vida só até ali: ali, na próxima esquina”.

Procurei banco, bati pé: fico aqui. Enxotei mendigos, gritei com crianças. Um trator rosnou. Amordacei todo barulho e qualquer presença. Ali sozinha, nem árvore me acompanhava. Falei bem baixo: “Esta solidão, nem você, nem você vai tirá-la de mim”.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.