exercício#1: “polir o voo mais que a um ovo”
ela olhou com surpresa a apresentadora do noticiário: quem era aquela mulher para folhear de forma tão íntima aquele livro? falava sobre ele, como se aquele objeto lhe pertencesse inteiramente. tentou não se importar, mas dois dias depois – ou três dias antes? – lá estava o comediante gordo segurando aquele mesmo livro, sorrindo enquanto o passava ao homem a quem chamava autor – um jornalista com aparência distinta e moderna, de fala entusiasmada – e que acreditava que o livro fosse dele. ela pensou em ligar para a emissora, reclamar seu direito de posse, como um marido traído. por menos que gostasse daquele enredo e daquele estilo, aquele era seu livro, e ele estava nas mãos de um desconhecido: de um impostor. nas mãos de um leitor qualquer que jamais saberia a sensação de tocar as entranhas de um livro, percorrê-lo, preenchê-lo, cortá-lo, substituí-lo, conferi-lo página por página, linha por linha, palavra por palavra, letra por letra, ausência por ausência. ninguém ali naquele show de horrores regado a música e comentários pretensamente inteligentes e divertidos jamais havia sido tocado pelo desejo de se apoderar plenamente de um livro: ela sabia. aquilo que pairava suspenso, brilhando entre as mãos do comediante gordo e do autor, era a sua coisa sem defeitos, sem máculas, sem arestas. o objeto perfeito que faria feliz quem o tocasse, como um midas ao contrário: libertador. o objeto polido de devotado amor, que passara dias e dias deitado sobre aquela mesa, a sua, preparada diária e pontualmente para a desinfecção: as provas impressas em papel branco, o original em língua estrangeira, o lápis, a caneta, a borracha, o dicionário, o dicionário, o dicionário. no estúdio do canal 12, ela sabia que aqueles homens se enganavam, sorridentes: aquele livro jamais lhes pertenceria. aquilo ali, brandido, iluminado, era apenas um objeto cenográfico, imprescindível para a pantomima que eles continuariam encenando em outro canal, em outro dia.
a profundidade da superfície#2: fragmentos para meu irmão (exercício)
pro zé guilherme e pro julius
os olhos [tristes] do meu irmão
fecham[-se]/ fotografam[-se]/[em] todas as mortes
fechou [fecharam-se]/onde a vida pára e começa pára começa e ____________.
os olhos do meu irmão tocam
[a dor a alegria] [o que não é dor ou alegria]
onde já não há mais dentro fora dentro fora ____________
uma carne só vermelha enquanto gota
_______ transparente enquanto seca
os olhos do meu irmão não somente lágrimas
cortam demasiado fundo
[não o bastante para serem vistos]
cansaço
não sei se foi ana maria braga, via narcisa taborindeguy, ou maurice blanchot, via roland barthes, que disse que “Parece que, por mais cansados que estejamos, não deixamos de realizar a nossa tarefa, exatamente como é preciso. Parece que não só o cansaço não atrapalha o trabalho, como o trabalho exige isso: estar desmedidamente cansado.”
ando pensando muito nisso ultimamente. estou cansada de tal forma que a única coisa que não pode acontecer é as coisas permanecerem como estão. e o mais incrível – mágico, talvez – é que nesse fim de semana me deparei com dois filmes que me mostraram essa mesma sensação de cansaço tão intenso que torna-se algo criativo, criador.
engraçado é que no primeiro filme, american splendor, harvey peaker é um sujeito lúcido que fica tão impregnado de vida sufocante que nada mais pode fazer senão transformar aquele cotidiano estúpido em arte. mesmo sem desenhar, é ele que vai planejando o roteiro das histórias com bonecos de pauzinho, para que ilustradores cuidem do desenho bacaninha.
o outro filme é o mais estranho que a ficção, a que eu não canso de assistir. nele, harold crick é um cara sem ambições, inserido em uma rotina de pequenas manias, da qual ele é arrancado quando começa ouvir uma espécie de narradora de sua vida.
***
este texto (inacabado, sim), do dia 17/02/09, estava salvo na pasta de rascunhos do blog. na época, resolvi escrevê-lo justamente porque eu estava chafurdada no cansaço, acreditando que só conseguiria que algo além brotasse dali se eu me dispusesse a fazer ALGO, que nem eu mesma sabia muito bem o que era. pois bem, fui fazendo tantas coisas – e tão desesperadamente – que do meu cansaço brotou uma vida nova no rio de janeiro. depois de quatro meses aqui, voltei a pensar nesses dois filmes e nesse rascunho, e resolvi publicar o post. mas agora tenho a sensação de ter voltado a uma rota da qual eu havia me perdido, sei lá, há uns 10 anos. e hoje o cansaço ainda bate - mais leve, porém. parece que agora, à beira dos 30, sei melhor onde estou, pra onde quero ir e onde eu posso ficar sem estagnar a força exuberante da vida. talvez eu esteja meio cafona pra escrever. talvez esteja mística. imagino que alguém pense que isso é coisa de hippie. só posso dizer que estou feliz, mas não sem carregar o meu cansaço - embora hoje ele seja leve, não uma pedra que interrompe o caminho.
picando a mula I
é engraçado dizer para os amigos, “olha, vamos almoçar nesta segunda, porque na outra já não vai dar.” engraçado pensar que eu não vou mais ter notícias daquele livro que tenho cuidado com tanto carinho e que eu queria acompanhar direitinho até a saída para a gráfica. não vou mais ouvir o diagramador dizer “vai dar tudo certo para nós” e soltar aquela gargalhada em seguida. não vou passar na sala do julius pra ganhar um abraço no auge do estresse da tarde. nem vou esperar ver a moça do restaurante do ICB levantar o rosto sorrindo após pesar meu prato, só porque gosto de olhar e confirmar que a maneira como ela faz a sobrancelha a torna parecida com uma escultura de umbanda. não vou mais ver os jatos de água da lagoa da pampulha e pensar que é iemanjá dando bom dia, nem vou olhar pra pista do aeroporto, pensando que daqui a pouco sou eu que já vou indo. porque daqui a pouco serei a que já está lá. é engraçado, há alguns meses tenho me preparado, mas, por melhor que seja, é sempre triste dizer adeus.
um pássaro que moverá as asas

“pistola”, joan brossa
“contos”, joan brossa
hoje uma amiga escreveu pedindo indicações de poemas objetos, e eu só consegui me lembrar dos objetos do brossa. acho que ele foi realmente um artista combativo, lúdico e delicado. e acho que ele ilustra bem o que eu entendo por poeta – e poema.
a primeira vez que soube da existência do brossa foi em uma revista cult que comprei em 98 – a primeira que vi. a capa era linda, uma imagem do brossa, mas comprei principalmente pela matéria sobre o reedição dos livros da ana cristina cesar pelo instituto moreira salles – e foi meu primeiro contato com a ana cristina cesar também. antes, só a conhecia de relance, num poema do drummond, que li na agenda da tribo (letícia féres denotando idade), dedicado a ela. mas isso é assunto pra outro post.
voltando ao brossa: mesmo depois de ter visto várias coisas dele, esses poemas que coloquei aí em cima são os que mais me tocam até hoje e que me dão algum alento para viver neste mundo cada vez mais violentamente absurdo. o primeiro por apresentar o poema como arma; o segundo, por transformar a escrita em serpentina. mas isso também dá outro post…
bom, além desses, tem este aqui, “poema”, que coloco a seguir:
POEMA
A Pepa
É verdade
que não tenho dinheiro
e evidente que a maioria das
moedas é de chocolate;
mas se você pega esta folha,
dobra de comprido
em dois retângulos,
depois em quatro,
faz então um vinco
em diagonal nas quatro
abas e separa
em duas partes,
obtém
um pássaro que moverá as asas.
o tradutor? hum…
será que foi o ronald polito?
***
engraçado é que ultimamente tenho me lembrado muito desse poema, mas o tenho lido de forma diferente do que há alguns anos. minha leitura anterior o via como uma escrita que passa a ser o desenho de um objeto, como se o poema fosse se realizando como uma escultura verbal que, ao fim, ultrapassasse os limites do papel, transcendendo-o. hoje penso que, além disso, esse poema é quase um conselho de vida: não importa o que aconteça, e não importa que nada aconteça, apenas faça o que é preciso, pois isso lhe dará asas. a libertação também é do sujeito que escreve e que lê, não apenas do objeto que é criado por ele.
e vocês, o que acham?
eu sou freelance
ok, empolguei com músicas que tematizam a liberdade. até queria parar de postar tantos vídeos, mas acabei me lembrando do grande hit que me acompanhou a infância: “eu sou free”, do grupo sempre livre, formado apenas por mulheres. depois eu é que sou infame…
mas a alegria de hoje foi descobrir que uma das autoras da letra é patrícia travassos, antes de deixar a numerologia entrar em sua vida. eu realmente adoro o descontrole da patrycia travassos apresentando o programa alternativa saúde, toda feliz, gorducha, fazendo perguntas desconcertantes, do tipo: “você lê jornal, vê t.v.?” pra uma monja que explicava como se mantinha tranqüila entre os humanos. acho que a travassos dá uma dose de autenticidade (lê-se “descontrole”) ao programa.
bom, mas é para você, amiga leitora, moderna, plural e freelance, que dedico esta música lianda:
e eu que passei anos confundindo “eu sofri” com “eu sou free”
e “sempre free” com “set me free”…
nem precisa de freud pra explicar. é o chamado bololô.
“pelé tem cheiro de amor”
é como diria wando: “se todo mundo falasse que joelho é peito, todo mundo ia tapar”
esse é um país que vai pra frente hohohohoho
vi lá no teleférico
chora, cavaco
essa música me lembra minha extinta casinha na aimorés 331 (beverly hills 90210?) com daniel e josy… e pensar que aquilo foi um dos inícios de tudo aqui em bh. quando ouço essa música não lembro exatamente de namoros e de amigos daquela época. é mais uma sensação de vida limpa e branca à minha espera.
20 anos de novo? ai jesuis.
religare

autorretrato con collar de espinas y colibrí, 1940
religare é nome de incenso, né? mas quero dizer é que nos últimos dias tenho me reencontrado com imagens que eu não acessava fazia tempo e junto a isso parece que vou retomando minha história. é meio maluco tudo isso, mas às vezes a gente vai se esquecendo do que é e do que veio fazer aqui – e é preciso muita atenção, muito foco pro negócio não descambar de vez. acho que entrei num nível de estresse tão grande nesses últimos tempos que a única coisa que eu podia fazer era respirar e voltar a lembrar quem eu sou e a potência do que serei. parece que consegui reencontrar o caminho.
a reprodução do quadro da frida kahlo não é uma ilustração do “meu eu profundo”, por favor. tem mais a ver com as imagens que eu não acessava fazia tempo, e acabam me transformando em quem eu sou. ou serei, vá lá.
bom, outra imagem que voltei a acessar é o vídeo de martha rosler, semiotics of the kitchen, de 1975:
era o medo o
acho ótemo o texto no site da cosac naify que explica o procedimento para envio de originais, leia aqui.
se um autor resolver ligar pra lá, pra conferir se os originais chegaram, o que será que acontece? tenho a impressão que a secretária entra na sala do charles cosac e aperta por ele o botão que enviará por sedex 10 uma bomba biológica (mofo de livro do século XV) direto na casa do autor, com a mensagem:”cale-se para sempre, insolente!”…
um pouquinho delicadeza não faz mal a ninguém, né não?
chocolate jesus
agora chocolate jesus não é só música do tom waits! vejam o site da empresa gold jesus, que está fabricando jesuses em chocolate. destaque para a fábula de natal, na página de abertura do site, que explica como papai noel foi tomando o lugar de jesus.
segundo o G1, igrejas na alemanha estão criticando a empresa: “É horrível que Jesus seja embrulhado em papel dourado e vendido em meio a coelhos de chocolate, pingüins comestíveis e pirulitos”, disse Aegidius Engel, porta-voz do acerbispado de Paderborn. ‘Isso está arruinando o símbolo de Jesus’.”
mas como bem lembra gold jesus, a deles é apenas mais uma forma de inserir o filho do homem na nossa mesa (ui). e penso aqui, olhando para minha nossa senhora de bala de goma: talvez essa seja o melhor jesus para os vegetarianos, não?
aproveito este momento de heresia e muita confusão para indicar um site que eu freqüento há anos: jesus dress up! (quem me mostrou, nos idos de nãoseiquando, foi o alisson).
o que é bololô
Homem é algemado por abraçar policial “carente”
Ele simplesmente concluiu que autoridade precisava de um abraço.
Oficial da cidade de Iowa pediu para homem se afastar, mas não adiantou.
como diria Fafá de Belém, queria saber quem é o encarregado de selecionar os fatos, separando as notícias normais das bizarras… como eles conseguem? será que tem curso pra isso?
as vacas
para lenise e seus nimbos
de uns tempos pra cá, o que não era livro jogava-se para fora, pela janela. eram os livros agressivos que se empilhavam pelas paredes, como espiassem o visitante secreto que chegaria, para de pronto o atacar. ali, os livros eram vacas violentas amontoadas no topo do pasto, dormindo de olhos abertos, errando, imóveis, enquanto chuva não havia. as páginas brilhantes dos livros de gravura abertos quadruplicavam a luz do sol e alvejavam a vista. enquanto a chuva chegava, a combustão dos livros explosivos alimentava a casa, gelava a geladeira, esquentava a bateria do multi-processador. alagados, os recipientes na cozinha boiavam, organizados por rótulos que levavam o nome dos papéis em pasta que continham. de uns tempos pra cá, eram as vacas amarradas aos estábulos que preparavam o alimento fibroso dos cegos. sem melhor a fazer, eram as vacas que se deitavam nas ilhas de livros a perder as horas degustando combinações melhores ou inferiores. do papel bobina ao papel arroz, somente as vacas não se furtavam ao prazer de mastigar mastigar mastigar aquilo que agora só os peixes liam.
acertei na quina
sorte de hoje
nada a fazer senão encostar a cabeça na quina dessa maldita pilha de livros que te espeta as costelas e rouba seu ar
borges e quem mesmo?
mão de borzes em izumo, zapão. 1983.
em comum com borges eu tenho o signo do zodíaco. dia 24 de agosto foi aniversário dele, mas quase ninguém se lembra de aniversário de morto – ainda mais de escritor morto há menos de cem anos.
a foto da mão de borges em izumo eu peguei aqui, um site ótimo sobre o escritor argentino, pra gente celebrar os 100 anos de imigração japonesa, 109 anos de nascimento de borges e os meus módicos 29 aninhos que ainda estão por vir.
ainda bem que desisti de ser poeta & escritora, não morri e posso eu mesma lembrar meus amigos e parentes de comemorar meu aniversário em vida, dia 07. sorte para poucos!
segundos de sabedoria
“…os livros (assim como as pessoas) saem com erro. relaxa.”
firula
“provérbios do inferno”, de william blake: minha voz com efeitinho tosco de jesus do programa voice candy. e também blake na versão voz de esquilo!

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