Alguns toureiros e Composição
João Cabral de Melo Neto, na conferência pronunciada na Biblioteca de São Paulo, em 1952, Poesia e Composição, apresenta sobre suas ideias acerca da inspiração e do trabalho da arte. Para ele, há duas famílias de poetas: a daqueles em que há a preponderância da inspiração e outra em que o trabalho de composição predomina.
Os poetas da “primeira família”, segundo o poeta pernambucano, veem na poesia uma forma de tradução de uma experiência vivida, baseada na emoção, na confissão, e não existe sem o poeta. É “um corte no tempo ou um corte no assunto”, uma forma de iluminar, ou melhor, poetizar determinado instante da experiência. Uma poesia pouco elaborada e cujo efeito estético não pode ser perfeitamente previsto e controlado pelo poeta: é conseguido mais pela entonação com que se lê o poema, sua música, do que por meio de um trabalho com a linguagem. Uma poesia que se lê “mais com a distração do que com a atenção, em que o leitor mais desliza sobre as palavras do que as absorve”.*
Contrariamente, os poetas da “segunda família” se impoem ao poema, procuram-no, em lugar de esperar que ele apareça, numa inspiração. Desenvolvem-no a partir de um tema que, por sua vez, é escolhido por um motivo racional. Trabalham o motivo exaustivamente, explorando as possibilidades da palavra, construindo uma linguagem própria: seu próprio gênero poético. Além disso, esses poetas articulam sua própria dicção a partir de um dado objetivo, concreto. Sabem que “sua riqueza só pode ter origem na realidade”. Trabalham com dados sonoros, mas também com os plásticos, dentro do poema.
Em Poesia e Composição João Cabral explicita sua posição sobre a poesia – que tantas vezes foi conceituada por ele em seus poemas, como, por exemplo, em “Alguns toureiros” , do livro Paisagens com figuras, de 1954.
Nesse poema composto por quadras, a imagem de cinco toureiros encontra relação com determinado tipo de flor – e funciona como uma metáfora sobre a existência de uma poética e de uma psicologia pessoal própria em cada poeta.
Assim, há Manolo González e Pepe Luís com sua “precisão doce de flor,/ graciosa, porém precisa.”; Júlio Aparício com a “ciência fácil de flor,/ espontânea, porém estrita”; Miguel Báez cultiva sua flor “angustiosa de explosiva”; Antonio Ordónez, sua flor antiga: “perfume de renda velha,/ de flor em livro dormida.”
Todos esses toureiros possuem sua beleza própria. Cada um recebe, após o fim da tourada, sua flor, cultivada durante a ação. Como se seu modo de tourear, sua arte, encontrasse relação com determinada flor.
Contudo, a ênfase é dada na apresentação de Manuel Rodríguez, Manolete – nota-se pela mudança do ritmo a partir do momento da chegada deste toureiro ao poema e no uso da conjunção adversativa: “Mas eu vi Manuel Rodríguez”. A partir daí o poema todo pára e se detém na figura deste toureiro.
A beleza maior de Manuel Rodríguez é ser deserto, agudo, mineral, desperto, duro como “lenha seca de caatinga”. A experiência de sua arte é feita com precisão, no limiar da morte. É o toureiro que sabe usar a técnica com exatidão para conseguir o efeito desejado do belo, num trabalho árduo e perigoso.
Os outros toureiros têm certa doçura e graça. Um cultiva o conhecimento da flor – fácil, espontâneo, mas exato. Outro tem sua flor explosiva, indomada. Esses toureiros se aproximam muito dos poetas “filhos da improvisação”. Têm uma beleza, mas uma beleza que não é trabalhada com afinco, é inspirada, e usa como ponto de partida a subjetividade do artista.
Manolete cultiva sua flor e pode demonstrar algo aos poetas, pois ele é o artista que “Durante seu trabalho, (…) vira seu objeto nos dedos, iluminando-o por todos os lados. E é ainda seu trabalho que lhe vai permitir desligar-se do objeto criado.” . É o asceta que cultiva o gosto pelas imagens duras, como o poeta que procura o verso possível de não ser feito, escrito em papel mineral.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MELO NETO, João Cabral de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999.
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outro do rascunho
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