agora somos vanguarda
Esta semana passei um bom tempo da minha tarde discutindo um comentário no Facebook, sobre livros digitais. Acho curioso quando aparecem ideias que desdenham o livro digital ou atribuem a ele a capacidade de arrefecer, paulatinamente, a participação criativa do leitor. O argumento usado, nesses casos, é que o livro digital apresenta muitas facilidades – e distrações – para a leitura. Há também os argumentos fetichistas: “nada como o cheiro do livro”, “a sensação de tocar o papel”, “o ato de percorrer os olhos pela estante e encontrar o livro, tocando-o, num gesto suave, até resgatá-lo para a leitura”, como na seguinte passagem do livro de Elisabeth Bishop (que retirei do esquecido blog do René):
Num filme caseiro que o casal nos exibiu, o rapaz aparecia em sua biblioteca pegando um livro na estante. Ao fazê-lo, num gesto natural, ele soprava a poeira acumulada na parte de cima o livro. Marianne não conteve uma risada. Adorou esse detalhe; era um exemplo da “espontaneidade” que ela admirava tanto quanto a “delícia”.
(Elisabeth Bishop – Esforços do Afeto: Memória de Marianne Moore)
Sou uma das que tem amor pelos livros como objeto, gosto de vê-los, de tocá-los – só acho meio chato tirar a poeira, mas a gente dá um um jeitinho. Porém, acredito que utilizar esses argumentos para rechaçar qualquer possibilidade de contato com o conteúdo e o dispositivo digitais, criando uma resistência a favor do livro impresso, é como se fazer isso fosse necessário para avivar nosso amor e desejo por esses objetos perecíveis (ou vocês se esqueceram de que livro é feito de papel, matéria viva?).
Não sei onde li isto, só sei que era num texto indicado por algum professor da faculdade de jornalismo: o livro somente desaparecerá quando um novo homem surgir. E acho que é isto o que está ocorrendo: uma nova sensibilidade está surgindo com essa nova linguagem propiciada pelos aplicativos-livros que hoje rodam em tablets e outros dispositivos móveis.
Porém, não consigo crer que a literatura – e com ela, os bons leitores e editores – tenham algo a perder com a quantidade desses novos recursos. Penso que devíamos estar felizes por ter a possibilidade de materializar e expandir o Livre impossível de Mallarmé. Esse livro infinito, que se refaz a cada leitura, desde sempre buscado pelo que se chama de vanguarda poética.
Os tablets aprimoram a ideia do holograma, da poesia combinatória, poesia sonora, visual, digital. Aliás, ele é capaz de integrar todas essas experiências poéticas em uma única mídia. Bem me lembro quando, em 2001, eu entrava em sites procurando a tal poesia digital e apenas encontravas tentativas toscas (perdão) de mixagem de imagem em movimento/vídeo. Imagino agora quem seria o primeiro a adaptar para tablets os livros Solida, de Wladimir Dias Pino, e 100.000.000.000.000 de poémes, de Raymond Queneau. Alguém se habilita?
O sonho de Mallarmé, perseguido durante toda a sua vida, era dar forma a um livro integral, um livro múltiplo que já contivesse potencialmente todos os livros possíveis; ou talvez uma máquina poética, que fizesse proliferar poemas inumeráveis; ou ainda um gerador de textos, impulsionado por um movimento próprio, no qual palavras e frases pudessem emergir, aglutinar-se, combinar-se em arranjos precisos, para depois desfazer-se, atomizar-se em busca de novas cominações. Esse livro, o Livre de Mallarmé – jamais pôde ser concluído (mas a um livro desses cabe a ideia de completude?), restando apenas, como indícios do projeto, fragmentos, anotações esparsas, apontamentos quase ilegíveis, recuperados graças a um notável trabalho filológico de Jacques Sherer (1957). O Livre deveria ter uma forma móvel, seria mesmo um processo infinito de fazer-se e refazer-se, algo sem começo e sem fim, que apontaria continuamente para novas possibilidades de relações e horizontes de sugestões ainda não experimentadas. Suas “páginas” (se é que se pode chamar assim) não obedeceriam a uma ordem fixa, seriam intercambiáveis e se deixariam permutar em todas as direções e sentidos, segundo certas leis de combinação que elas próprias, na sua procura do orgânico, engendrariam. Já não se trata nem mesmo de uma obra aberta ou potencial, um livro onde os poemas estariam em estado latente e em que, a patir de um reduzido número de células de base, se oiderua realizar milhares de possibilidades combinatórias. Trata-se verdadeiramente de um livro-limite, “o limite da própria ideia ocidental de livro”, como diz Haroldo de Campos (1969:19), que desafia os nossos modelos habituais de escritura e aponta para o livro do futuro, “le livre à venir” , esse livro que, segundo Blanchot (1959:335), já não está verdadeiramente em lugar nenhum, nem se pode mais ter nas mãos.
Arlindo Machado, “O sonho de Mallarmé”, no livro Máquina e imaginário, p. 167-168. Edusp, 2001.
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encontrei isso num rascunho de 2010. não sei por que não publiquei. ainda concordo comigo
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