em busca do fogo (novamente)

Texto 1

Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão

da voz

a insinuação de um gesto uma temperatura

à sua extraordinária desordem preside em pensamento

melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)

mas de ”moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”

não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”

uma ideia organizada um cânone

queremos sugerir coisas como “imagemde respiração”

“imagem de digestão”

“imagem de dilatação”

“imagem de movimentação”

“com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era

uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre

algo como o confessado amor das palavras

no centro

não tentamos criar abóboras com a palavra “abóbora”

não é um sentido propiciatório da linguagem

introduzimos furtivamente planos que ocasionais

ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho

para antigas explicações ”discursos de discursos de discursos” etc.)

fixemos essa ideia de “planos”

podemos admiti-los como “uma espécie de casas”

ou “uma espécie de campos”

e então evidente para serem habitados percorridos gastos

será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?

uma vez se designou mão para que a mão fosse

uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse

uma vez o discurso foi a mão

partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário

era esse o ”espírito” o ”destino” da linguagem

agora estamos a ver as palavras como possibilidades

de respiração digestão dilatação movimentação

experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente

“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém

estão a falar a andar umas com as outras

a falar umas com as outras

estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência

para todos os lados

sugque comporta uma certa inflexão

de voz

é uma espécie de cinema das palavras

ou uma forma assustadoramente juvenil

se calhar vão destruir-nos sob o título

“os autômatos invadem” mas invadem o quê?

Herberto Helder, Antropofagias, p. 321-322

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