onde andará dulce veiga?

tóquio, 27/11/74 Junho 9, 2008

Arquivado em: sobre poesia e literatura — letícia féres @ 3:11 pm

Sempre rejeitei a idéia do som pelo som. A meu ver, o som é sempre o pólo complementar daquele elemento fundamental da música, sem o qual a vivência artística não é possível: o silêncio. É tarefa do compositor anulá-lo, para depois restituí-lo. O som tem por função produzir, enfatizar, intensificar e conscientizar o silêncio. Não me refiro ao silêncio no sentido da não-existência do sim, mas sim no sentido de “sei jaku”, ou seja, calma interior e equilíbrio, como fundo originário da vivência espiritual, condição de ordenação e critério de conteúdo e valor.

De fato, prezado professor, para mim, música é arte somente quando - e isto sempre foi assim – permite esquecer o som e causar um estado de equilíbrio interior. Portanto, quando a música se torna silêncio ativo, por assim dizer.

- Koellreutter, em carta a Satoshi Tanaka. Está no livro do músico alemão, À procura de um mundo sem “vis-à-vis: reflexões estéticas em torno das artes oriental e ocidental.

 

tóquio, 20/05/75 Junho 9, 2008

Arquivado em: sobre poesia e literatura — letícia féres @ 2:55 pm

Quando estive na Europa, vi e ouvi numerosas obras de arte que me causaram a impressão de que nelas tudo é descrito e expresso até o último detalhe. Esta arte parece-me demasiadamente eloqüente e até tagarela, sem espaço para o vazio e o silêncio. Não existe o inconcebível, o vago, o velado, tampouco a expressão indecisa (ambígua), discreta ou oculta. Tudo é claro, brilhante, maciço, forte e extrovertido. Tudo é repleto e abundante.

Freqüentando museus e concertos na Europa, senti que minha sensibilidade enfraquecia paulatinamente embora me opusesse a esse tipo de arte. Nada me impressionou verdadeiramente. Lembrei-me, por exemplo, da superfície vazia da aquarela japonesa, na qual – citando o senhor – não existe o som pelo som, mas sim como meio para produzir, intensificar e conscientizar o silêncio. Tal arte, pintura ou  música, não é impressionista, construtivista ou expressionista. Ela se funda em princípio completamente diferente, ou seja, no princípio da sugestão. No Japão, a arte que apenas delineia se desenvolveu muito. Nela, o artista se concentra em um único objeto concreto, ou ocorrência, como símbolo que sugere algo que está oculto em algum lugar, na profundidade. A nós, japoneses, parece que somente essa arte possibilita expressar o que não pode ser expresso.

-Satoshi Tanaka, em carta a Koellreutter. Está no livro de Koellreutter, À procura de um mundo sem “vis-à-vis: reflexões estéticas em torno das artes oriental e ocidental.