o bartolomeu
bartolomeu campos de queirós é unanimidade, ao menos aqui em bh, como exemplo de um grande escritor: aquele que é uma grande pessoa e escreve textos que produzem alguma eletricidade em nós.
eu não tenho muita paciência para os textos memória/infância/minas - o bartolomeu campos de queirós é conhecido pelo tratamento que dá a esses temas -, mas mesmo assim me enveredei pela leitura dos livros desse autor. e é inegável que isto seja lindo:
“Era silencioso o amor. Podia-se adivinhá-lo no cuidado da mãe enxaguando as roupas nas águas de anil. Era silencioso, mas via-se o amor entre os seus dedos cortando a couve, desfolhando repolhos, cristalizando figos, bordando flores de canela sobre o arroz-doce nas tigelas.
Lia-se amor no corpo forte do pai, no seu prazer pelo trabalho, em sua mansidão para com os longos domingos. Era silencioso, mas escutava-se o amor murmurando – noite adentro – no quarto do casal. A casa, sem forro, deixava vazar esse murmúrio com aroma de fumo e canela, que invadia lençóis e dúvidas, para depois infiltrar-se por entre telhas.
Experimentava-se o amor quando, assentados no calor da cozinha – pai e mãe – falavam de distâncias, dos avós, das origens, dos namoros, dos casamentos.
E, quando o sono chegava, para cada menino em cada tempo, era o amor que carregava cada filho nos braços para a cama, ajeitando o cobertor por sob o queixo.”
- Bartolomeu Campos de Queirós, Indez.