onde andará dulce veiga?

que mistérios tem clóvis bornay?

fazer um comentário »

“Confesso que esperava um Clóvis Bornay pernóstico, fútil, antipático. Para a minha agradável supresa encontrei um Bornay que fala com simplicidade e com amor de suas coisas, usando a sinceridade quase ingênua de quem não tem por que ser atacado. Só uma coisa me irritou: fez-me esperar no Museu Histórico Nacional e depois foi diretamente para a casa dele, sem uma explicação sequer. Controlei meu mau humor no meu contato com um dos maiores, se não o maior carnavalesco de todos os tempos. O mais curioso é que nem se pode chamá-lo de ‘carnavalesco’, uma vez que ele não brinca no carnaval: ele se mostra. Mas, enfim, carnaval é carnaval e vale tudo.

- Desde quando começou a se interessar pelo carnaval?

- Acho que logo após o nascimento: nascido no auge de um carnaval, lembro-me depois que, ainda no colo, os mascarados me apavoravam. (Essa lembrança deve ser posterior, pois Bornay não poderia, como disse, guardar memórias de logo após o nascimento.)

- E como passou do pavor ao amor?

- Ao perceber que os mascarados eram pessoas amigas e alegres. E passei a amar o carnaval, participando dele desde a infância.

(…)

- Se eu quisesse me fantasiar no carnaval, que fantasia me aconselharia a ter?

- Espere, espere, já estou sabendo, estou só pensando no nome. Achei. É ‘Firmamento’. Seria uma túnica de renda negra cravejada de estrelas de brilhantes. Na cabeça a meia-lua e numa das mãos uma taça de prata derramando estrelas;

- Não há mulher que não fique linda vestida assim. (…)

- Imagino que o ano inteiro você vive pensando nos três dias de carnaval. Acertei?

- Não. Porque o maior amor da minha  vida é o Museu Histórico Nacional onde exerço a função de museólogo. Meu trabalho é tão apaixonante que me absorve 360 dias do ano, restando apenas a fuga dos quatro dias da folia momesca. Na quarta-feira de cinzas estou a postos no meu gabinete de trabalho.

Despedi-me desse homem simples e puro. Mas quem já estava com a cabeça virada era eu, que não sou museóloga: quero ser o firmamento com minha túnica negra bordada de estrelas de cristal…”

- Entrevista de Clóvis Bornay a Clarice Lispector publicada no livro De corpo inteiro.

Written by letícia féres

Maio 14, 2008 às 2:47 pm

Deixe um comentário