onde andará dulce veiga?

poesia e mercadoria

com 9 comentários

Eu sempre achei descabida a discussão em torno da cisma de escrever “poeta” no campo de “profissão” do formulário do banco, como há muito querem alguns poetas (ou músicos?) daqui de BH. Acho que isso é coisa de rir mesmo: eu, se fosse gerente de banco, ia rachar de rir de um negócio desses.

Eu, que sou gerente só da minha vida – e já está ótimo, estava lendo uma coisinha que deu uma luz tão grande pra esse blá blá blá, que fiquei encantada e não pude deixar de postar: vejam aí abaixo. E é como dizem por essas bandas daqui da minha casa: se foi Leminski quem falou, quem sou eu pra dizer o contrário?…

Os senhores mirem e vejam:

“A poesia seria cúmplice, desde o início, desse sentimento que se chama amor. Eu acho que é uma coisa perfeitamente lógica, natural, porque a poesia, se vocês olharem bem, ela é o amor entre os sons e os sentimentos. Ela já é na sua substância, intrinsecamente, ela já é amor, já é aproximação, no sentido que é amor entre os sons e os sentidos, num sentido que a prosa não é. É por isso que a poesia não morre. Por que essa coisa tão inútil que não consegue sequer se transformar decentemente em mercadoria num mundo mercatório, esse mundo em que vivemos? Qualquer editor principiante sabe: poesia não vende. Existe esse hiato, realmente poesia não vende, e é bom que não venda! Sabe aqueles que reclamam dizendo, é um absurdo, um país como o nosso, não sei o quê, tchê, tchê, pá, pá, e poesia não vende. Vamos nos rejubilar. Poesia não vende. Poesia é ato de amor entre o poeta e a linguagem. E esse é um território como se fosse assim uma reserva ecológica do mercado em que vivemos que resiste ao fato de se transformar em mercadoria. Não é uma infelicidade e nenhuma inferioridade da poesia escrita, falando da poesia escrita, da poesia, escrita, da poesia livro, a dificuldade dela em se transformar em mercadoria é uma grandeza.  Quem não entender isso não entende a verdadeira natureza da poesia, ela é feita de uma substância que é, basicamente, rebelde à transformação em mercadoria. A gente pode criar um mundo assim, um império total da mercadoria, tudo pode ser vendido, coisas, sensações, as coisas mais incríveis, os momentos mais emocionantes. Uma coisa, porém, não pode ser transformada em mercadoria, que é o amor. Amor é dado de graça, alguém pode comprar amor? Pode-se comprar o sexo de outra pessoa, mas o amor a gente sabe que é o último reduto que resiste à transformação em mercadoria.”

- É do Pauleminski, “Poesia: a paixão da linguagem”. Tá no livro Os sentidos da paixão.

 

Só pra dar um finalzinho aqui: ultimamente tenho ganho a vida com meus textos. Não tenho “poeta” na minha carteira de trabalho, mas tá lá: “redatora”. Redator e o escambau não é o mesmo que ser poeta de carteira assinada. Escritor de carteira assinada é o mesmo que o José Costa, do Budapeste. Só vivendo pra saber. Poeta de carteira assinada nunca vi, e esconjuro se um desses chegar perto de mim.

…………………….

Com essa discussão toda aí de cima, me lembrei que Lenise Regina, amiga querida que também ganha a vida escrevendo (além de ser uma das melhores poetas que conheço!, um exemplo de que uma coisa não exclui a outra) tá com coluna sobre publicidade, propaganda, escrita, literatura e demais parangolés no site Casa do galo. Lenise escreve lá sempre às segundas, olhem só que beleza!

Written by letícia féres

Abril 21, 2008 às 2:22 am

9 Respostas

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  1. adorei o post sobre o filme “o amor em cinco tempos”. quando puder dar um pulinho lá no nosso, se sentir de fazer um comentário de qualquer coisa, será uma honra.
    um abraço. isaias
    dissertandosobrecinema.blogspot.com

    isaias

    Maio 16, 2008 em 4:32 am

  2. [...] embora a discussão tenha tido o seu começo no blogue da minha amiga letícia féres, isso não quer dizer que discordo dela. pelo contrário. letícia é uma das pessoas mais [...]

  3. [...] – vejam lá. [...]

  4. Que coincidência, nós ganhamos dinheiro da mesma forma: escrevendo. Sou editor de um jornal em Goiás. Ah, também sou historiador pela UEG, e escritor e poeta. Bom, pra começar queria dizer quem é Paulo Leminski, então, ele é “poeta” e romancista. Segundo: infelizmente acho que você faz parta das estatísticas levantadas pela CBL sobre os 1.8 % percentual de brasileiros que lêem um livro por ano, e 1% desses que não entendem/compreendem ou não sabem o que lera. Por favor, retire esse tópico, respeite seu autor e não tente defender suas subjetividades com o argumento alheio. Abraços!!!

    Túlio Henrique Pereira

    Túlio Henrique

    Maio 14, 2008 em 7:55 pm

  5. [...] levo muitíssimo pouco a sério pra fomentar discussão. mas ainda devo dizer que acredito que o trecho do leminski tenha relação com a idéia de que a finalidade da poesia não é o mercado. e não tem nada a [...]

  6. [...] alguns dias eu li um texto no blogue da letícia (poesia e mercadoria) que me deixou bem pensativo. pensei em comentar ou publicar algo aqui neste blogue, mas não me [...]

  7. hahaha
    Legal sua conclusão. Tinha lido uma parte do texto no blog do Bruno Brum.
    Eu sempre penso bastante a respeito do assunto.
    Baseado na discussão toda, fiz um esquema. Eu estou lá. Muita gente está lá também. Veja se você se acha:
    http://www.flickr.com/photos/rinitecronica/2449453683/sizes/l/
    Abraço.

    Ricardo Silveira

    Abril 28, 2008 em 9:18 pm

  8. Adorei o texto, Letícia. Também já desisti de ser super herói. Beijo.

    Bruno Brum

    Abril 28, 2008 em 9:46 am

  9. seria mesmo muito estranho um filme chamado “profissão: poeta”

    outro

    Abril 23, 2008 em 1:46 pm


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