as cartas de amor

9.10.1929

Terrivel Bébé:Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha tambem. E é bonbon, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bébé deve escrever-te sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguem gosta de mim, e tambem porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e o ponto final ate recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um individuo com ventas de contador gaz e expressão geral de não estar alli mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bébé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma creança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim

Fernando

4 Responses to “as cartas de amor”

  1. que lindo! quem � fernando?

  2. � o fernando em pessoa..

    e quem � outro?

  3. para si, eu
    para mim, si
    para fernando, si mesmos

  4. q bonitinho e rid�culo isso!

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